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quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Entre o sangue e o destino: Velho Chico e seus diálogos


A famosa sentença de Tolstoi no início de Anna Karenina (1877) “As famílias felizes parecem-se todas; as famílias infelizes são infelizes cada uma à sua maneira” poderia ser uma epígrafe perfeita para alguns dramas vividos pelas personagens principais de Velho Chico. A novela tem como pedra fundamental a rivalidade entre duas famílias e explora sob diversos ângulos seus dramas coletivos e individuais. Família em primeira instância remete a sangue, signo definidor desses laços. A ideia de sangue e todos os sentidos que desse elemento, tão concreto e tão simbólico, podem emergir circula com força na narrativa.
 
 O sangue aparece através de várias situações e sentidos. Seja de forma indireta, através da preocupação com a sucessão do clã dos Sá Ribeiro tão fortes na falas de Dona Encarnação (Martim, herdeiro biológico x Carlos Eduardo, herdeiro social) ou de forma mais explícita, como nas cenas da emboscada e suposta morte de Santo com Tereza e Miguel “lavados” com seu sangue, ou nas várias possibilidades de vingar e honrar o sangue já derramado. Mas ainda há outro elemento que mexe também com essa simbologia, a possibilidade de incesto entre Olívia e Miguel. Daí sai de cena Tolstoi e entra Eça de Queirós e seus Maias.
 
No famoso romance de 1888, ao traçar magnificamente um painel da aristocracia portuguesa através da família Maia, Eça põe em discussão o tema do incesto, assunto tão tabu na nossa cultura. Velho Chico, como um bom rio que é, bebe em muitas águas e em muitas fontes e realiza muito bem o princípio da intertextualidade das mais diversas formas. O drama dos “irmãos” na novela, para nossa moral e consciência tranquila, não será o mesmo dos irmãos da Maia, Maria Eduarda e Carlos Eduardo.
 
Os nossos jovens conheceram-se e apaixonaram-se, e ao descobrir o parentesco, foram maltratados pelo destino que ordenava o fim daquele desejo pecaminoso. Olívia e Miguel sofreram copiosamente por não poder viver aquele amor. Já os portugueses também se conhecem e se apaixonam, vivem uma relação ardente e só descobrem depois que são irmãos separados na infância pela leviana mãe, Maria Monforte. Benedito Ruy Barbosa e sua equipe colocaram tintas novas nesse quadro, sobretudo no momento da revelação.
 
Em Os Maias, Carlos descobre o parentesco e vai ao encontro da amante e agora irmã para contar da tragédia que foram vítimas, mas sucumbe ao desejo e tem mais uma noite com ela já sabendo da verdade, então há um incesto de fato nessa ocasião, já que antes desconhecia. Em Velho Chico, Olívia descobre que não são irmãos através de sua mãe, que numa cena comovente, liberta sua filha daquela angústia e também se liberta das mentiras que a sufocavam. Olívia vai ao encontro de Miguel, que ainda sem saber, não resiste e enfim dá-lhe o beijo tão adiado na ainda irmã, e é claro que ela sem culpa alguma corresponde (ela e nós já sabíamos, portanto, não houve incesto). Só então  conta a verdade redentora que a permite viver seu amor, mas a afasta do sangue dos Anjos e de ser filha do homem que tanto admira. São os encantos da ficção a contar e recontar as mesmas histórias de modos diferentes.
 
Outra força que movia Os Maias e também os dois clãs da novela é a noção do destino(uma crítica de Eça ao cientificismo cego), que as coisas acontecem porque tem que acontecer, regidas por leis superiores que desconhecemos e quem ousa duvidar desse fado paga caro, como vários mitos gregos nos contam ao longo dos séculos. Luzia ousou mexer no destino de Santo e Tereza e está pagando com seu sacrifício. Saruê, Cícero e Carlos Eduardo igualmente tentam separar o casal e eles reatam o amor. Na cena do resgate de Santo na aldeia por Tereza, a índia, uma espécie de sacerdotisa, reconhece a ligação dos dois e afirma que ficarão juntos, não se sabe quando, reafirmando a primazia do destino sobre as ações e intervenções humanas.
 
Por falar no resgate de Santo, todas as cenas desde o momento de sua “morte” foram muito sofisticadas e carregadas de outras menções literárias e míticas. A emboscada teve um quê de Jorge Amado e mais ainda de Adonias Filho e a idéia de morte e ressurreição foi atravessada por mitos gregos e dos nossos também. Desde a barca de Caronte fazendo a jornada entre o mundo dos vivos e os dos mortos ao Nego D’água evocado por Dona Ceci (benzedeira, figura tão cara na nossa cultura, sibila sertaneja), os rituais de pajelança, o diálogo entre os dois mundos, mostrado em paralelo com as almas de Santo e Tereza (ela de branco) e enfim o retorno de Santo ao mundo dos vivos após os apelos de sua amada...Ou se preferirmos mais um mito revisitado, Orfeu e Eurídice, que no sertão do Brasil seria Eurídice e Orfeu, pois é ela quem o busca no além...Continuemos a nos afogar nesse rio de histórias...
 
P.S. Em breve falaremos de Justiça, esse soco seco no estômago, no coração e na consciência...
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Um ano de Entretelas, um brinde às telas e seus diálogos

Prezados Leitores,

De repente este nosso espaço completa seu primeiro ano. A ideia dele começou a ser gestada bem antes, quando nas minhas diversas aulas fazia comentários sobre cenas de filmes e novelas e, alguns alunos atentos aos fios que ia puxando, diziam que devia escrever sobre aquilo. Com a chegada do Facebook, com todas as suas dores e delícias, passei a fazer alguns registros desses comentários. Mais uma vez os alunos e alguns amigos, agora centenas deles reencontrados virtualmente e ainda atentos à fala da professora, alimentaram a idéia do Blog. Veio a coragem e com a ajuda de Lydia Aninger, uma dessas ex-alunas inesquecíveis, hoje Relações Públicas versada nas redes sociais, botamos o menino para nascer.  
O nome desse espaço de conversa para quem aprecia boas narrativas, ENTRETELAS, tem três significados para mim. O primeiro é o mais óbvio, o diálogo entre as telas (novelas, , séries e desenhos) e os textos da literatura e da cultura. Já o segundo, remete ao verbo entreter, divertir, dar prazer. Já o terceiro, aquele que guardo no coração, e até então só foi captado pelo meu caro ex-aluno e amigo Paulo Fabrício (hábil leitor das artes), vem daquele tecido grosso, usado pelas costureiras, para dar sustentação aos tecidos ralos. Esse é o mais especial, porque costumo ouvir muito por aí que novelas e afins são banais, repetitivas, alienantes, ou seja, tecidos ralos, e algumas são mesmo (há joio e trigo em tudo).
Daí a minha intenção de engrossar um pouco esse tecido (da mesma raiz latina de texto), alinhavando alguns fios mais grossos sob e sobre eles. Para falar como professora de literatura, esse é um espaço para dar voz à intertextualidade nas suas mais diversas potencialidades, como propôs Kristeva, "todo texto é um mosaico de citações", cabe ao leitor percebê-las ou não de acordo com o seu próprio repertório.
Não tenho periodicidade fixa de postagem ou obrigações nenhuma com ele (ver segundo significado). Depois de um ano, começo a perceber que tenho vontade de escrever quando uma cena, um capítulo ou um filme é tão bom e cheio de significados e citações, que minha mão coça para comentar o que notei  e a mente animada pensa no título. Aí já viu... É correr para essa tela aqui para a inspiração não fugir.
Como com os filhos quando fazem aniversário, suas mães pensam na comemoração. Esse texto aqui é como o bolo da festa, os docinhos virão já já. Como boa mãe, tenho que contar algumas artes da criança. Já temos leitores em mais 9 países além do Brasil, e que susto não levei ao ver Ucrânia, Índia e Turquia dentre eles (coisas de mãe). As primeiras postagens ficavam na marca dos 100 ou 200 leitores,  daí foram crescendo e a última sobre Velho Chico (novela boa arretada! A mão coça muito!) chegou à casa dos 1000. Chega disso, porque toda mãe é um pouco exibida. Perdão, não posso esquecer dos comentários de tantos leitores conhecidos, desconhecidos e anônimos que respondo com alegria e que aumenta o desejo de continuar tecendo e do relato de alguns descrentes que contam que começaram a dar uma chance às tramas depois de ler essas minhas impressões.

Servido o bolo, é a hora esperada dos docinhos, aqueles apetitosos que ficam ao seu redor na mesa principal da festa e esperamos ansiosos por eles e queremos levar conosco para o dia seguinte. Como aqui o cardápio principal são cenas arrebatadoras. Eis nosso banquete, algumas imagens que marcam aleatoriamente minha memória e meus gostos (alguns estranhos)! Sirvam-se sem moderação. Saúde e vida longa ao Entretelas e aos seus leitores e que nunca nos falte motivação para tecer o profícuo diálogo entre as telas!

Entretendo-nos e reforçando os fios encantados da ficção. E os convido para preencher esses espaços vazios com suas escolhas afetivas, serão os presentes da festa...Vale Tudo!

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