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domingo, 26 de maio de 2019

A dona do pedaço: Uma receita de sucesso


Existem poucas histórias, é a maneira de contá-las que faz a diferença” Daniel Filho

A epígrafe que abre este texto, da autoria do ator diretor Daniel Filho, um dos grandes nomes da televisão do Brasil, expressa as minhas primeiras impressões sobre A dona do Pedaço, novela de Walcyr Carrasco com direção acurada de Amora Mautner, que estreou trazendo sabor novo ao horário nobre. Ele que é um chef em misturas exitosas como Chocolate com pimenta, parece que nos brindará com outro cardápio saboroso.
Estruturada nos elementos centrais do folhetim e do melodrama, a novela trata de amores impossíveis, famílias rivais, crianças perdidas, mocinha virtuosa, vale de lágrimas, segredos guardados, dentre outros fios tradicionais da telenovela. Temas que já vimos em tantas outras tramas nas telas e nos livros, mas ainda são capazes de nos comover e nos por diante da televisão (ou do smartphone, em tempos de segunda tela) a torcer pela felicidade de Maria da Paz. Como na frase de Daniel Filho, é a forma de contar que nos põe entusiasmados a assistir a mesma história contada de outra maneira. Os ingredientes do bolo parecem conhecidos, mas a forma de misturá-los e a apresentação da receita faz o já visto parecer novo diante de nós. E lá estamos a degustar nossa fatia diária...
A novela iniciou com muita força e repleta de simbologias. Numa espécie de lugar perdido no Brasil profundo, Rio Vermelho, duas famílias de pistoleiros rivais vivem em eterna disputa, onde cada morte é vingada seguindo a Lei de Talião. De um lado, os Mateus, do outro, os Ramires (remete aos Badarós e aos Silveira de Terras do Sem Fim de Jorge Amado), e para desequilibrar essa eterna guerra de sangue, brota o amor de Maria da Paz e Amadeu (nomes motivados, trazem a aliança em seus significados).
 Um amor que nasce na natureza, longe da cultura e das convenções, ele a salva do galope do cavalo, lhe dá água, ela lhe dá seu corpo e sua alma. Vale destacar, no campo dos símbolos, tendo no centro o sangue, a cena na qual a matriarca (Fernanda Montenegro, não há adjetivos para te louvar) treina as crianças atirando nas chamas das velas, metáfora da vida. Só Maria da Paz não acerta, indicando ali que a sua chama continuaria acesa e que ela não nascera para aquele destino. A sua chegada na Rodoviária de São Paulo rezando o salmo 23 foi uma cena forte e bem realizada, mostrando sua singularidade em meio à multidão que por ali chega todos os dias.
O capítulo de sexta-feira (24-05) foi icônico, enquanto Maria da Paz começava a dar seus passos que a tornará A dona do pedaço, ao lado de um núcleo cômico cativante, bem ao gosto dos clowns de Shakespeare, formado por atores de excelência (só não foi uma boa escolha Beth Farias como mãe de Nanini, a diferença de idade é inconcebível, literalmente, até brincaram com o seu biquini), sua avó cobrava a dívida familiar com mãos de ferro e força mítica. Matou seus inimigos e ateou fogo na casa rival, mais simbólico impossível, numa sequência de ação e emoção notáveis. Antes de morrer, a mãe coragem em sua carroça, arrancou o segredo que ali fora buscar, é preciso encontrar as crianças, a continuação do clã, juramento que moverá os Ramires. Destaque para o papel do padre, um veículo constante de apaziguamento.
Do outro lado do Brasil profundo, em São Paulo, outro país pulsa. Com suas personagens de um Brasil real, a professora aposentada com seus proventos minguados e coração gigante, o drama dos sem-teto amainados pela comicidade, o esnobismo da alta burguesia (Nathália Timberg divina), universo outro que atravessa o destino da protagonista, que como ela afirmou, se veste de esperança. Em suas costas, outro acordo será selado pelas mães sobreviventes, a morte dos amantes, para elas essa união é impossível, só gera tragédia. Como em O Seminarista de Bernardo Guimarães, a família sustentará essa falsa morte para enterrar o amor impossível, mas é claro que ele voltará com força...
Destaquemos ainda a beleza estética da trama com fotografia belíssima, cenas campais, sol que nos incandesce, interpretações viscerais, com menção honrosa para Luiz Carlos Vasconcelos, trilha musical bem brasileira e vivificante, abertura saborosa que deixa a gente com aquele gostinho de quero mais...Ao final, é isso que toda boa história nos provoca, o desejo de querer mais um pedaço...De bolo e de ficção...

sexta-feira, 5 de abril de 2019

Órfãos da Terra: Entre o folhetim e a verossimilhança


A nova novela das 18:00h que estreou esta semana já roubou nosso coração desde o primeiro capítulo. Órfãos da Terra, da autoria de Thelma Guedes e Duca Rachid, tem como pano de fundo histórico, para uma grande história de amor proibido, o drama dos refugiados sírios. Parece que estes serão os dois eixos que nortearão a trama:  O amor e a guerra em suas variadas nuances, os dois maiores temas da literatura, senão, os únicos. Com esses ingredientes dificilmente a receita falhará. Poderia ser exibida ás 21:00h, tem força narrativa para o horário nobre.
O aspecto verossímil da trama nos pôs dentro da Guerra da Síria, ferida exposta e aberta do nosso tempo. A história macro da guerra cruza-se com a história micro da família de Laila (Julia Dalavia), a protagonista da trama, difícil dizer mocinha para uma moça tão valente. É como se em meio a milhares de vidas ali destruídas, as autoras pinçassem uma família para individualizar o drama coletivo daqueles que perdem tudo, até mesmo o chão debaixo dos pés. As imagens felizes de uma festa de aniversário foram substituídas, em segundos, por destruição e dor.
Em meio dessa terra arrasada, cenário inóspito de um campo de refugiados, brota (regado por água) o amor proibido de Jamil (Renato Góes) e Laila. Mas como nos bons folhetins, trata-se de um amor proibido. O Sheik Aziz (Herson Capri excelente no papel), vilão por excelência, já havia posto os olhos nela e, por meio de métodos escusos, ganha o direito de desposá-la. Ao fugir para não casar, a jovem atrai a ira do seu algoz. Não bastasse isso, ele é uma espécie de protetor de Jamil, que o tirou do orfanato quando criança e planeja que ele seja seu genro e sucessor. Jamil, portanto, sofrerá do dilema moral de trair aquele que o amparou, mesmo discordando de seu comportamento abjeto.
São claro os ecos de Tristão e Isolda sobre eles. Tristão recebe a tarefa de ir buscar a noiva de seu tio que o criara, o Rei Marcos, e, durante a missão, apaixona-se pela bela Isolda, até a viagem e o navio temos. Mas, como obra contemporânea costurada pelos fios da intertextualidade, torceremos que o final do casal seja outro que não o do drama medieval. Os espectadores torcem sempre por finais felizes.
Ao escolher o tema dos refugiados como fundo histórico, enredo completamente verossímil, as autoras também estão tratando dos imigrantes que  aqui vivem por diversas razões, na maioria por guerras também. Já sabemos que essa Babel paulista nos trará o lado cômico da trama com tantos “brimos” e ‘brimas” brigando e comendo quibe e tabule. Já nesse início, tivemos uma cena de briga entre um árabe (Flávio Migliaccio) e um judeu (Osmar Prado), ressignificando com humor conflitos milenares. Tal cena nos remeteu ao magistral filme Concorrência Desleal, de Ettore Scola. A colônia árabe de São Paulo receberá, em breve, a família de Laila, e o choque cultural certamente aparecerá. Do outro lado do mapa, casamentos arranjados, poligamia, dote... Por aqui, uma prima feminista que mostra os seios na Avenida Paulista, comerciantes tradicionais que têm que se adaptar aos novos tempos, em meio àquele clima de casa árabe com mesa farta, mães dramáticas e muito falatório.
Destaquemos ainda a beleza da novela construída por riqueza de detalhes e símbolos. A abertura é belíssima, um mosaico de vários povos que por aqui vivem e os personagens vão se juntar a eles como naquelas fotografias de família. A oposição entre a casa-palácio do Sheik e a pobreza dos refugiados, a aliança perdida no meio da explosão, a chave da casa que o árabe que vive há décadas no Brasil guarda no bolso esperando pela volta, os despojos no mar, fragmentos de vidas que se dissolvem abruptamente e os abraços frequentes da família para quem a Pátria passa ser apenas o desejo de permanecerem juntos, mostrando que o amor sobrevive em meio aos destroços e é o combustível para continuar buscando uma terra prometida...E a mola propulsora dos folhetins...
Começamos muito bem, e com desejo aceso de continuar assistindo nossas Sherazades, Thelma e Duca, que já nos encantaram outrora com seus cordéis encantados e joias raras, a cada capítulo mal respiramos esperando o próximo, assim como o sultão das Mil e uma noites, afinal o que gostamos mesmo é de ouvir boas histórias para continuarmos vivos e esperarmos o dia seguinte....


segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Assédio: O médico é o monstro


O famoso romance inglês O médico e o monstro de Robert Louis Stevenson, conta a história do prestigiado médico Dr.Jekill que faz pesquisas sobre o comportamento humano, numa dessas experiências acaba criando uma droga que faz vir à tona seu lado animal adormecido, o Mr. Hyde (no inglês o verbo hide, esconder, ocultar; Mr. Hyde é a face oculta do bom Dr. Jekyll), tal livro representa um dos maiores clássicos do terror psicológico, bem típico do cientificismo da época vitoriana. É impossível assistir à série Assédio, exibida atualmente apenas no aplicativo Globoplay (só foi ao ar na TV aberta o primeiro episódio), e não associar ao livro publicado no século XIX e tantas vezes reencenado no cinema e nos desenhos infantis. Só que na série, ao contrário do protagonista ficcional, o médico é o monstro e infelizmente não é só um ser imaginário.
Baseado no livro A clínica: a farsa e os crimes de Roger Abdelmassih de Vicente Viladraga, adaptado para a televisão pelo texto preciso de Maria Camargo e direção de Amora Mautner, a série perscruta os corredores da clínica (laboratório do médico/monstro) com seus insondáveis segredos, a mente labiríntica de todos os envolvidos e, sobretudo, o sofrimento individual  das vítimas, mulheres que buscam naquele sombrio local o milagre da vida que a natureza lhes negou, mas aquele médico das estrelas poderia resolver.
Creio que muitos de nós já conhecíamos o perfil do Dr. Roger, antes dos seus crimes virem à luz, de algum programa da televisão ou revista semanal, nos quais ele expunha com toda pompa e circunstância os bebês por ele vindos ao mundo, algumas vezes filhos de celebridades que gostavam de repetir “foi Dr. Roger quem fez”. Auto apelidado de Dr. Vida tal sua prepotência (na série Roger Sadalla), esse psicopata é representado por Antonio Calloni com total competência, chegando a nos provocar o asco inevitável. Todavia, passamos a ver sua migração das colunas sociais e afins para as páginas policiais através da denúncia de mulheres vítimas de seus ataques. A série é muito mais que a representação ficcional da história de ascensão e queda de um monstro, ela é também a consagração da força das mulheres que se uniram em prol dessa dor inominável, serem violentadas num momento de total fragilidade.
Todas as vítimas tiveram suas vidas destruídas ao cruzarem o portão daquela bela clinica que escondia horrores em suas saletas de vidros baços onde à meia luz e, aproveitando-se algumas vezes do torpor do anestésico, o monstro agiu impune por anos, condenando essas mulheres ao sofrimento do silêncio, da dúvida, da escuridão e da solidão tão bem retratados na tela por cenas escuras e ambientes fechados.
Destaquemos a qualidade artística da produção tão rica em detalhes e potência simbólica (talento já mostrado por Maria Camargo na adaptação de Dois irmãos). A começar pela música de abertura, Silent Night, traduzida para o português por Noite Feliz, que simboliza a um só tempo a festa cristã, como também a silêncio e a solidão. As mulheres com desejo pelo nascimento (natal) de filhos com ajuda da ciência que lhe acenava, tinham seu sonho atravessado pela violência sexual que lhes impingia o silêncio e o medo. Signo irônico presente na letra e na condensação de sentimentos cristãos presentes na trama, que vão da culpa à falsa fé apregoada pelo Dr. Vida. Na abertura também temos, como numa espécie de caleidoscópio, diversas imagens aparentemente desconexas, mas que dão uma unidade  à história, a agulha, o sangue, as pílulas, as imagens sacras dentre outras.
Quanto aos índices simbólicos dos sentimentos vividos pelas personagens temos muitos exemplos. O cofre, onde a sofrida esposa de Dr. Roger, Glória, vivida com maestria por Mariana Lima (uma personagem de uma complexidade impar, na sua primeira aparição já é possível perceber sua carga emotiva) guarda as fotografias das traições do marido aponta para toda a sua agonia recolhida que acaba por se transformar num câncer que a mata lentamente assim como as imagens das câmeras, segundo a fala de uma personagem, ela tinhas duas doenças, a outra era ele. A relação edipiana do médico com sua mãe e a opressão com os filhos e netos nas cenas da mesa/casa são sinais de quem era o homem de verdade na intimidade. A xícara tão cheia que transborda inundando a casa da personagem de Adriana Esteves, vítima com papel chave na narrativa com seu vestido vermelho e seu isolamento, uma atriz completa que sabe ir da comédia rasgada ao drama absoluto capaz de nos assombrar na série com seu silêncio eloquente. A cena da lâmina de barbear interpretada pela baiana Maria José no banho, vivida por Hermila Guedes, outra personagem que junto com Odair (João Miguel), seu marido caminhoneiro desonrado, nos faz ter mais ódio ainda do criminoso. São inúmeros detalhes que compõem esse intricado mosaico de dor que vai lentamente sendo costurado como num triler psicológico de alta tensão.
Voltando para a força e união das mulheres que só vão ganhar voz e luz a partir das redes sociais e de ações investigativas encabeçadas na série pela jornalista Mira Simões que se doa por inteiro para solucionar essa série de atrocidades, inclusive negligenciando sua própria vida (a cena de Martim no carro é desesperadora) e se encarrega de costurar os fios soltos durante tantos anos. Tal corrente em busca de justiça vai ganhando corpo na abertura de cada episódio quando os nomes das mulheres vão se enfileirando em série e crescem a cada capítulo, representação alusiva da força que ganham quando se juntam e rompem o cerco de silencio, fruto de uma estrutura social repressora que criminaliza a mulher abusada e põe seu drama sob dúvida.
 É uma série muito forte, exige coragem para quem a fez, exige coragem para quem a assiste, exigiu coragem de quem teve coragem de denunciar e investigar, em muitas cenas fechei os olhos e senti repulsa, nada comparado ao drama real dessas mulheres, contado individualmente através de algumas delas. A justiça não foi perfeita, mas ao menos o ídolo foi destronado e já não poderá fazer mais vítimas. A vida pode ser muito pior que a arte e aqui muito além do entretenimento, a teledramaturgia presta um serviço para a sociedade. Quando a violência grita, grite. O silêncio pode criar outros monstros.


terça-feira, 16 de outubro de 2018

O Segundo Sol nasce para todos


A novela Segundo Sol encaminha-se para o final e segue aquecendo seus espectadores nessas últimas semanas. Como um dos elementos estruturantes do folhetim tradicional temos a transformação de personagens más em boas depois de passar por expiações ou também a famosa volta por cima, no melhor estilo “os humilhados serão exaltadados.” Na primeira categoria temos Rochelle e Roberval, na segunda Zefa e Nice.
Rochelle, a infante terrível da Bahia, retrato de uma educação permissiva feita de vontades, mimos e omissões, protagonizou cenas de caráter desprezível como as armações contra a irmã, o desprezo pelos pais e desrespeito por todos que ela julgava inferiores à herdeira do império Ataíde. Agora, vítima da Síndrome de Guillain-Barré (novela prestando papel informativo, merchandising social), começa seu aprendizado pela dor, quem antes ela maltratava são os únicos que lhe estendem à mão e cuidam dela com doação integral. Foi preciso chegar literalmente ao chão para chamar a mãe de mãe e sentar numa cadeira de rodas para ver o mundo de outra perspectiva. Já Roberval começa a se curar de tanto ódio e sede de vingança para novamente merecer o amor de Cacau e no fundo obter o que sempre quis, um lugar na casa dos Ataíde, mas para isso teve que suar a camisa de novo, voltar ás origens.
Zefa e Nice, minhas coadjuvantes preferidas, estão ganhando vez e, sobretudo, voz, tendo coragem para enfrentar seus homens opressores. A cena de Zefa intitulando-se como matriarca da família e esbofeteando Severo (símbolo da decadência burguesa) foi um espetáculo à parte. O seu micropoder antes silencioso, agora ecoa no casarão em franca dissolução, sobre o qual ela tenta manter de pé ao menos os laços afetivos. Nice, através de seu dom, está retemperando sua vida e construindo um novo cardápio de opções ao lado de suas filhas, enquanto Agenor se dissolve na solidão que provocou ao maltratar todos.
Mas nem só de redenção vive a trama, embora o Segundo Sol possa nascer para todos. O casamento de Clovinho e Gorete foi uma comédia musical para ninguém botar defeito, com direito ao Clown vestido apenas com uma bandeja, creio que ninguém resistiu no sofá e deu uma requebrada ao som do hit do verão 2019 Sal na pele, um perfeito clip do axé nos tempos áureos . Quanto ao núcleo principal, a quadrilha de JEC começa a acertar o compasso da justiça final: Valetim que era filho de Karola que agora é filho de Luzia que é mãe de Ícaro que é pai do filho de Rosa que era parceira de Laureta que era irmã de Remi que era filho de Nestor embora pensasse que fosse de Dodô que é casado com Naná que é mãe de Beto que é irmão de Yonan que é pai do filho de Maura, aliás doador (Ufa!), não é fácil acompanhar essa genealogia, mas nós estamos com os DNAs em dias.
Sigamos nos aquecendo com o Segundo Sol que já começa a se por, mas ainda briha com fulgor, ainda mais quando aqueles postais de Salvador nos faz crer que a depender do ângulo a Bahia é a terra de todos os cantos, encantos e axé. Salve, Pai Groa! Que bom seria se o Delegado Viana recebesse um caboclo em plena invasão do terreiro como num romance de Jorge Amado.


terça-feira, 28 de agosto de 2018

Segundo Sol: Precisamos falar sobre Zefa e Nice


A novela Segundo Sol vem trazendo discussões muito interessantes em suas tramas secundárias. É comum nas novelas de João Emanuel Carneiro o rodízio das histórias, lançando luz simultânea em variados núcleos, como naquelas mesas giratórias nas quais variados pratos vão passando em nossa frente. As histórias secundárias não são apenas satélites que giram ao redor do planeta, nesse caso em torno de Beto Falcão e seus dilemas éticos e amorosos, elas ganham corpo próprio e nos fazem até esquecer qual o eixo norteador da novela.
Personagens, a princípio coadjuvantes, vão crescendo e ganhando fôlego ao longo da jornada e despertando inquietações diversas. Sem desmerecer outras interpretações femininas arrebatadoras e hilárias (Quem não ri com Dona Naná e seus dois maridos ou de Gorete recebendo o espírito de Beto?), pois essa é uma narrativa com muitas mulheres fortes vivendo suas dores e delícias. Agora, olhemos com mais atenção para  Zefa e Nice.
Zefa, excelentemente interpretada pela atriz baiana Claudia Di Moura, em seu primeiro papel na televisão, vem, literalmente, roubando a cena. Seu papel é tão complexo que fica impossível rotulá-la. Ora ela é a mãe preta, a aia, a mucama com toda carga de submissão e resquícios da senzala. Ora ela é a cumeeira da casa grande, a única viga que mantém aquele palacete de pé sobre seus andaimes carcomidos, a guardiã dos segredos escusos no fundo das gavetas, a voz conciliadora ou tudo isso ao mesmo tempo. Repleta de fragilidade e força ela nos desperta sentimentos diversos dentro daquele núcleo que representa a ruína da família aristocrática. Seu sacrifício de escolhas duras entre os filhos e sua maternidade dolorosa nos remonta à matriz bíblica.
Ela é a famosa personagem esfíngica. Em nome do amor pelos filhos e pela impossibilidade de sobrevivência num mundo extramuros que lhe é hostil, ela foi suportando e vivendo com sua fé inabalável na família que caminha a passos largos para o precipício. Suas angústias nos colocam diante de uma questão sociológica, qual o seu lugar? Frase típica da submissão que ela sempre repete, “eu sei o meu lugar”, mas para nossa sorte, Zefa, seu lugar cresce a cada capítulo e vem tomando nosso afeto.
Vamos a Nice. Dona Nice, vivida pela talentosa atriz de teatro Kelzy Ecard, que assim como Claudia Di Moura, estreia nas telenovelas com uma atuação de tirar o fôlego. Nice, em princípio, pode ser vista como uma personagem-tipo, ela dá vida a milhões de mulheres oprimidas pelos lares brasileiros. Dona de casa caprichosa, mãe extremada, é completamente anulada em sua individualidade pelo marido opressor, o grande Roberto Bonfim, que nos faz ter asco de Seu Agenor. Aliás, permitam-me uma pausa, já que falei de asco. Agenor e o Delegado Viana, ótimo ator baiano Carlos Betão (grande Sargento Getúlio nos palcos), estão tão bons com seus “machos escrotos” que a gente tem vontade de surrá-los pessoalmente, e é esse o papel do ator, viver tão bem sua personagem a esse ponto de gerar repulsa ou empatia  na plateia ( Aristóteles na veia), diante de um palco ou de qualquer tela.
Voltando a Nice, uma dona de casa, do lar, que sofre suas dores calada e não tem voz para enfrentar o marido, nem mesmo quando esse rejeita e expulsa suas filhas de casa, mas como ela é muito mais que um tipo, sua virada começou. E sua força vem daquilo que ela melhor sabe fazer, cozinhar. Sua cena dizendo sim a Cacau (outra arretada) ou buscando desesperadamente sua imagem diante do espelho ou ainda o primeiro enfrentamento com Agenor, questionando inclusive a sua falta sexual, foram verdadeiros solos de ópera. Nice poderia ter saído das páginas de Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles ou Adélia Prado, mas também ser nossas vizinhas e amigas, é uma mulher de carne e osso, mesmo que escrita de tinta.
Continuemos de olho nelas duas e em toda a trama, afinal todos têm direito a um Segundo Sol ou terceiro, ou quarto e Sal na pele, na pele, na pele...


sexta-feira, 17 de agosto de 2018

O tempo não para e o mundo é um museu de grandes novidades



A nova trama das 19:00h, O tempo não para, de autoria de Mario Teixeira, vem se revelando como uma bela novidade para esse horário que geralmente é reservado para comédias e experimentações diversas. O autor tem vasta experiência como colaborador em novelas como A padroeira, O cravo e a rosa, Passione e I Love you Paraisopólis, de programas infantis como Castelo Rá-ti-bum e O sítio do pica-pau amarelo, agora inaugura sua carreira solo  e a vem fazendo com grande competência, haja vista o sucesso dos primeiros capítulos.
Uma família de grande influência e posses na São Paulo do século XIX é congelada durante um naufrágio em 1886, juntamente com seus escravos e seu cachorrinho de estimação. Misteriosamente sobrevivem e despertam desse sono congelante intactos em 2018. O mote que aparentemente é inocente e já explorado no cinema, temos filmes famosos como O de volta para o futuro  ou as menos conhecidas comédias De volta para o Presente e Kate & Leopold com temáticas semelhantes, tem sido conduzido com muita destreza e diálogos milimetricamente elaborados que nos têm rendido boas risadas com as confluências e divergências desses dois brasis de ontem  e de hoje.
Uma das graças principais da trama é o que podemos aproximar da comédia de erros proporcionada pelos diálogos extremamente ricos sobre as diferenças desses mais de cem anos. As expressões linguísticas de ontem e hoje sempre estão gerando situações de ambiguidade que provocam o humor. E uma das funções do humor, presente na máxima de Plauto, Ridendo Castigat Mores, é ser usado como crítica social, papel que a novela tem desempenhado muito bem.
O texto está sendo construído como uma espécie de palimpsesto, o Brasil de hoje está sendo escrito sobre o Brasil de ontem e as camadas dos tempos passados sobrevivem com suas marcas e se confundem com o presente. Já aconteceram cenas excelentes que brincam com essa superposição de tempos e permanência de problemas sociais, como os diálogos entre Dom Sabino e Eliseu sobre impostos e política ou o tratamento dado ao tema da escravidão e seus ecos no presente.
Outra estratégia que chama a atenção é a formação de pares de posições semelhantes de ontem e hoje. Dom Sabino emparelha-se com Eliseu, assim como Marocas com Paulina. Chefes de família de ontem e hoje, moças fortes de ontem e hoje que ocupam classes sociais diferentes de ontem e hoje. As diferenças são muitas, mas as semelhanças no aspecto humano também são muitas, o que dá profundidade ao tom cômico gerado pela descoberta das novidades da contemporaneidade pelos congelados.
A presença insólita dos congelados provoca interesses diversos que vão do amor à cobiça, da amizade ao desejo de conhecimento que gera a glória. O mundo não é mesmo um museu de grandes novidades? Se a trama conseguir continuar seguindo o ritmo desses primeiros dias, parece-me que essa novela será supimpa, deleitosa, aprazível, esplendorosa, garbosa e com Ivete cantando Raul na abertura já é um convite a sentar na namoradeira, na voltaire, no divã ou no sofá diariamente....


quarta-feira, 11 de julho de 2018

O ser tão profundo de Onde nascem os fortes


A série Onde nascem os fortes de George Moura e Sérgio Goldenberg, dupla de roteiristas e cineastas de grande talento, já demonstrado em obras como Amores Roubados, O rebu e O canto da sereia, vem chegando ao seu final com êxito e se mostrou ao longo da trama como uma obra de fôlego, complexidade, escolha de elenco impecável e narrativa instigante O horário das 23:00 h tem algumas vantagens e o fato de ser uma obra fechada também, os autores contam com total liberdade de criação e não sofrem interferências da audiência. Talvez a única queixa que tenhamos a fazer seja o seu tamanho, creio que menos capítulos resolveriam bem a trama sem grandes prejuízos para o enredo.
Um misto de road movie, conflito familiar e drama de vingança se entrelaçam numa história comovente que gira em torno dos filhos gêmeos de Cássia, a visceral mãe coragem de Patrícia Pillar. Maria (Alice Wegmann) e Nonato (Marco Pigossi), em busca de aventuras na natureza com suas bicicletas, saem de Recife e vem para Sertão desbravar trilhas. O fato de serem gêmeos nos põe diante do tema do duplo, mote tão explorado na literatura universal. Nonato com sua curta participação, funcionará ao longo da trama como um espectro a guiar o enredo. O seu desaparecimento muda todo o rumo dessa aventura dos jovens e faz Maria se transformar numa Donzela Guerreira que busca com força desmedida descobrir o que aconteceu com seu irmão. Notemos que ela é uma personagem meio andrógina, frágil e forte, com suas roupas vaporosas e seus cabelos curtos, em determinado momento se vestiu de homem com direito a chapéu de vaqueiro a la Diadorim. Aliás, as referências ao universo rosiano aparecem com força. Sertão esse lugar sem porteira.
O lócus da trama, Sertão, é um microcosmo do Brasil profundo, quase medieval, com leis próprias, ou sem leis, ou leis que derivam ao gosto dos seus representantes como o juiz Ramiro (Fábio Assunção) e o delegado Plínio (Enrique Diaz), tão convincentes em suas atuações que nos provocam asco, ambos beirando a psicopatia. A questão mística também é sintomática desse universo, a figura de Samir, mais uma vez Irandhir Santos mostrando que é um dos melhores atores da nova geração, é uma das grandes personagens da trama. Esse líder espiritual da Comunidade de Lajedo dos Anjos, uma espécie de Terra Prometida, com suas chagas de estigmata ainda sofre na carne e na alma as angústias humanas que precisam ser expiadas eternamente.
Pedro Gouveia (Alexandre Nero, talhado para protagonistas fortes), em principio parecia ser o grande vilão da trama, foi se transmutando ao longo dos capítulos e despertando nossa empatia. É o tipo que perdoamos as falhas morais em nome do seu outro lado, pai amoroso e homem justo. E o que dizer de Ramirinho (Jesuíta Barbosa, outra fera), com sua Shakira do Sertão, uma atuação tão compungente que nos arrebata com sua dor de Assum Preto ou de José Dumont, com seu mítico Zé das Cacimbas?
A trama seria apenas uma história de Crime Castigo, não fosse o amor que esbarrasse no caminho das personagens. Maria/Hermano/Walquíria/ Simplício, Pedro/Rosinete/ Cássia/ Ramiro e outras ligações perigosas. Destaquem-se também as mutações de Rosinete, brilhante Débora Bloch, de mãe sofredora e contrita a uma mulher que busca sua felicidade. A intensidade dos sentimentos que vão da posse ao amor sem reservas transbordam na nossa tela alaranjada como o sol e a poeira das estradas do Sertão.
Outro ponto a destacar na trama é a presença dos fosseis na história, o fato de Sertão ser um sítio arqueológico. Parece-me a grande metáfora da trama, as camadas a escavar do humano que sempre guardam grandes mistérios. O revolver da terra faz o tempo voltar e desencavar segredos insondáveis. Foram muitas cenas memoráveis até então, destaco aqui  uma que comoveu muito, Cássia desenterrando a cova de Nonato com as próprias mãos, encerrando sua busca pelo corpo do filho.
A trama já está chegando ao fim, como bons espectadores aguardemos que a justiça seja feita e os maus punidos, mas fiquemos sempre atentos, pois nem tudo é o que parece nas paragens do Sertão, afinal “o diabo vige dentro do homem, os crespos do homem — ou é o homem arruinado, ou o homem dos avessos. Solto, por si, cidadão, é que não tem diabo nenhum. Nenhum!”. Eu conto e vocês botam o ponto...



sábado, 26 de maio de 2018

Sob e sobre o Segundo Sol: A morte e a morte de Beto Falcão



A nova novela das 21:00h, Segundo Sol, de João Emanuel Carneiro, começou antes de começar. A polêmica sobre a ausência de atores negros numa trama que se passa num estado onde a maioria da população é negra surgiu com força nos dias que antecederam sua estreia, assim que as primeiras chamadas foram ao ar. Como professora de literatura e estudiosa das relações entre Literatura e Telenovela, declinarei dessa discussão, pois concordo em parte com a questão que certamente traria mais verossimilhança para a trama, mas por outro lado, como defensora da arte como uma manifestação humana que não tem como função exclusiva retratar somente o real, defendo a novela como veículo de entretenimento e reflexão e sem esquecer que, sobretudo, é um produto mercadológico, por sinal o mais rentável da Televisão. A Bahia é só a moldura. Lanço, portanto, meu olhar para o terreno que costumo pisar, a análise textual.


 O título da novela já sugere a ideia de recomeço, por isso a passagem de tempo de 18  anos para que nós telespectadores, conhecedores do embrião da trama mostrada nos primeiros dias na novela, possamos compreender seus desdobramentos no tempo atual. E esses são muitos e variados. O eixo central gira em torno de Beto Falcão, cantor de Axé já em decadência que é convencido por sua entourage vigarista, irmão/empresário/canalha e namorada/ambiciosa/mau-caráter que ele vale mais morto que vivo, pois sua falsa morte faz com que  volte a valer no mercado artístico e publicitário, até romaria houve em sua porta mostrando a hipocrisia dos fãs que já nem lembravam do cantor. Daí todos lucram com o falso mito que se forma. São claros os ecos de Roque Santeiro, obra-prima de Dias Gomes. Assim como Roque, Beto vira mito e passa a viver de sua mitificação, como na fictícia Asa Branca que passa a ter no falso heroísmo de Roque sua principal fonte de renda. Até uma sombra de Porcina temos, a personagem de Débora Secco assume a postura de viúva oficial e vive para alimentar seus direitos autorais e manter vivo o legado do marido.


Além desse intertexto com o grande dramaturgo, autor de sucessos como Saramandaia e Mandala, temos também o diálogo claro com Jorge Amado, como não poderia ser diferente numa novela que tem como cenário Salvador. Inclusive houve uma cena em que Miguel/Beto lê Tieta do Agreste (por sua vez inspirada em A visita da velha Senhora, as relações entre os textos são inesgotáveis), aquela que volta para se vingar, assim como Luzia Batista (Cansada de Guerra, quanto sofrimento em tão poucos dias). Os influxos amadianos são muitos, mas gostaria de focar o olho na Casa Grande do núcleo rico da novela. Inclusive, a expressão Casa Grande e Senzala (Gilberto Freyre ainda tem muito a dizer sobre nós) já foi citada diretamente por Roberval, Fabrício Boliveira, que protagonizou uma cena magistral ao descobrir sua paternidade.


Filho do patrão com a empregada, aquela famosa “como se fosse da família”, transbordou sua revolta justa com um brilhante texto e sua saída da Casa sob uma chuva copiosa  deu mais dramaticidade à cena (nos remete também ao filme Que horas ela volta?). O discurso de Roberval nos levou a uma passsagem de Jubiabá:



 “A vida no Morro do Capa Negro era difícil. Viviam das tarefas no cais, carregando cargas pesadas ou do trabalho em casas ricas. As crianças já sabiam seu destino; o trabalho no cais ou em fábricas enormes. Enquanto isso, os meninos ricos iam ser médicos, advogados, engenheiros, homens ricos. Também, podiam ser escravos desses ricos. Antonio Balduíno queria outro destino, desejava ser livre como Jubiabá e Zé Camarão. Tudo o que fez depois, veio das histórias de valentia ouvidas à porta da casa da tia Luísa. E elas falavam daqueles que se revoltaram contra o trabalho escravo, dedicado ao branco. Mas, Balduíno era também moleque travesso, líder das coisas malfeitas no morro. 


Roberval, assim como Antonio Balduíno, deseja outra vida. Por agora, trilha caminhos tortuosos, aguardemos o que virá, é uma personagem que promete. Até então acho essa Casa o melhor núcleo da novela, com seus segredos, relações familiares complexas e seu cruzamento com o eixo central através da adoção problemática de Manuela, que acaba por reproduzir,com seu irmão Icaro, o mesmo drama de Roberval e o seu patrãozinho Edgar.


Passados os 18 anos, todos vivem sob esse segundo sol posto no passado que selou a separação entre Luzia e seus três filhos por artimanhas das vilãs Carola e Laureta, que volta agora para tentar reparar as injustiças sofridas e as pontas da sua vida interrompida. Seus três filhos são todos rebeldes e sofrem dramas diversos, drogas, rejeição, desajustes emocionais e farsas identitárias dentre outros conflitos.


Ainda destaquemos, nesse raiar do Segundo sol, a amoralidade de Laureta, uma Carminha mais perversa porque não gosta de ninguém, só pensa em lucrar e para isso não mede esforços, até leilão virtual de mulheres faz em sua mansão-club Sodoma e Gomorra (já deu saudade de Dona Caetana  e sua boate raiz), a bela amizade entre o Gringo e Luzia, o sotaque bem acertado de alguns como Ícaro (Chay Suede) e Ionan  (Armando Babaioff,). Tudo leva a crer que investiram bastante na pesquisa das expressões do nosso baianês, confesso que está massa ouvir tanto “mainha”, “se saia”, “oxe oxe oxe” e  “osadia”. E o colorido e a trilha sonora da abertura também estão de lenhar, a mistura de Cassia Eller com Baiana System ficou de torar.


JEC é conhecido como autor de tramas fortes, nos deu o maior sucesso dos últimos anos com Avenida Brasil, além de bagunçar nossa cabeça com A Favorita. O situo na linhagem de Gilberto Braga, com seus conflitos de forte carga dramática, jogo social em torno do poder do dinheiro, relações familiares densas e seus famosos ganchos que nos deixam ligados até o dia seguinte. Acho que O segundo sol até começou meio morno, mas já começou a esquentar....Continuemos na cocó, se ligue aí..

P.S. Eu sou baiana de Feira de Santana e creiam:  Existem muitas Bahias...




quinta-feira, 10 de maio de 2018

O outro lado do paraíso, algumas considerações antes do fim



Essa semana estamos acompanhando o final de O outro lado do Paraíso de Walcyr Carrasco. Não creio que seja uma novela que entrará para a lista das favoritas do país marcando seu imaginário, não a considero uma grande novela como um todo, mas digamos que seja uma boa novela, que cumpre seu duplo papel de entretenimento e discussão de temas polêmicos, com grandes pequenos momentos. Walcyr já nos deu belos banquetes dramatúrgicos  como em O Cravo e A rosa ou Amor à vida, já faz parte do panteão dos melhores autores e segue firme a nos contar boas histórias.

Dentre esses grandes pequenos momentos destaquemos como ponta de lança a atuação marcante dos atores da terceira e já quarta idade. Fernanda Montenegro que estamos acostumados a ver, em sua maioria, em papeis de mulheres sofisticadas e urbanas, encarnou sua Dona Mercedes com uma maestria que nos faz lembrar uma sacerdotisa ou sibila mítica. Sua sábia rezadeira nos deu lances emocionantes durante a trama, que vão do enfrentamento e vitória sobre a morte duas vezes (uma no começo da trama outro agora no final quando botou Zé Vitor para correr e fez seu “mal” escorrer pelas veias) a momentos de grande graça quando, como uma mocinha romântica, amarelou diante do altar onde seu noivo Josafá a esperava. E que parceria desses dois! Lembrando O amor nos tempos do cólera (ela mesma atuou na adaptação do romance de Gabo para o cinema) ou O Casarão, esses especiais amantes, mais de alma que de corpo, esperaram décadas para enfim viverem seu amor/cumplicidade/amizade especial. Ele, aquele homem cheio de dignidade e valores morais, se rende à sua amada que não consegue controlar de jeito nenhum, respeitando, mesmo cheio de medos, sua missão guiada por  “Eles”.


 E Dona Caetana, a decana do time, nossa Laura Cardoso, brilhando como a experiente cafetina entre os paetês, neons e segredos da Love Chic, acho que será um dos seus grandes momentos na TV pela desenvoltura e humor que deu o tom à grande Dama da Noite. Uma espécie de Fada Madrinha controversa para as primas do Bordel que vivem seus sonhos de Gata Borralheira, mostrando que nem sempre  "fazer a vida" é uma escolha. Mas Ana Lúcia Torre, também roubou os holofotes como Dona Adneia, no seu microcosmo familiar, dentro do seu AP de onde saiu poucas vezes, refletiu tão bem as agruras de uma mãe entre o modelo ideal de família que ela acreditava ser o melhor para seu filho até aceitar a família  que o faria feliz de fato. Dentro do seu AP tivemos as cenas mais engraçadas da novela, capitaneadas por ela e na sua crença na cura gay. Sua cena essa semana de aceitação do amor entre Samuca e Cido foi muito emocionante, após muito relutar (a apneia não colou) ela os abraça formando a família possível, amor de mãe em estado bruto. E seu monólogo posterior foi golpe de mestre do autor, ela sozinha rearrumando o novo lar, ajeitando as almofadas, recolhendo os farelos do bolo e se reinventando para aceitar que a felicidade do seu Tigrão  é com Cido (Zulu também surpreendeu) e chegando a constatação óbvia que não há cura porque não há doença. Sua voz foi uma espécie de voz da consciência social para a aceitação e conciliação.


Voltando ao núcleo central da novela, a vingança de Clara, ela enfim chega ao final da novela concluindo seu plano, só falta Sofia. Já um pouco vingada pela vida e tendo que ser cuidada por Stela, a filha que sempre rejeitou. Na cadeira de rodas ela ficou da mesma altura da “aberração” e teve que olhá-la de frente. O papel de Stela também é digno de nota, suas aulas de alfabetização para adultos iluminaram sua atuação. Durante sua recuperação tem que conviver com o que sempre quis esconder, houve alguma comoção na cena em que sua filha massageava seu rosto, mas ela é má por excelência e não há redenção para a vilã serial killer. Diferentemente de Gael que vem conseguindo a regeneração porque era dual. Depois de marido agressor punido pela Lei Maria da Penha, volta a ocupar os pensamentos da mocinha nada romântica. Como bom folhetim, ficou para o final a famosa pergunta Com quem ela vai ficar? Acreditamos que com Patrick, aquele amor cavalheiresco que mudou toda a sua vida para servir Sua Senhora, mesmo sem muitas garantias do final feliz.


Vale ainda lembrar que um dos temas mais fortes da novela foi a questão materna, como já disse em texto anterior. Foram muitos os modelos de relações de mães e filhos explorados na novela. Do abuso sexual pelo padrasto, da Grande Mãe do Quilombo, da mãe Naja que quer manipular a vida dos filhos e se redime pelo amor ao neto, da mãe que rejeita, da mãe-coragem que doa um rim, da madrasta que renega a enteada, da mãe adotiva Lívia que na hora do sequestro, dor extrema,  une-se a Clara e chamam Tomaz de nosso filho, aceitando que ele tem duas mães.


A novela em alguns momentos se perdeu um pouco se arrastando no meio do caminho, mas do meio para o fim recuperou o fôlego e nos fez ficar com vontade de assistir no dia seguinte. Aliás, ela passou a adotar o modelo do resumo do capítulo anterior e chama para o novo dia no inicio de cada episódio, ops, capítulo, imprimindo o ritmo de série à trama, pois essa filha do folhetim, que já foi radionovela, fotonovela, vai se transformando com os anos e se adaptando aos novos tempos onde enfrenta a concorrência de tantas outras telas, mas continua a nos convidar a sentar e assistir, torcendo pela justiça no final, onde o Bem sobrepuja o Mal, pois tudo que você faz um dia volta pra você, ao menos na ficção a Lei do Retorno é certa, com raras exceções...



quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

O Outro Lado do Paraíso: Entre a Hybris e a Mershandising Social

O tema da vingança atravessa a história da Literatura. Na mitologia grega temos como um dos grandes exemplos a personagem da tragédia de Euripedes, Medeia, que para vingar-se da traição do marido, Jasão, mata os filhos que tivera com ele. Em Hamlet, o herói vacilante vê-se obrigado a vingar o assassinato do seu pai que fora morto por seu tio para usurpar o trono, ainda casando-se com sua mãe. Em O Conde de Monte Cristo, o protagonista volta para cobrar vingança contra todos que o traíram. Esse último serve de inspiração direta para O Outro Lado do Paraíso. As personagens que encarnam esses planos de vingança geralmente são marcados pelo que os gregos chamavam de Hybris, a desmesura ou desmedida, ou seja, para executarem seu plano de vingança nada os detém, são capazes de tudo, até memso desafiarem os deuses e os códigos morais e sociais.
Clara se aproxima dessa característica, movida pela sede de vingança, ou justiça, dependendo do ponto de vista, ela voltou disposta a reparar o mal que lhe fizeram, para só depois cuidar de ser feliz. Começou seu plano vingando-se do médico que lhe diagnosticou como louca, facilitando sua internação. Para esse ela trouxe à tona sua orientação sexual escondida sob as sombras das cortinas sociais. Refeitos do escândalo que revelou que o Tigrão era Tigrete, o drama tornou-se núcleo cômico da novela. Agora era a vez do delegado, pois seu plano é urdido em ordem crescente relacionado à proporção do mal que lhe causaram. O delegado Vinicius (Flávio Tolezani) engavetou suas várias queixas de agressão contra Gael, sonegando-lhe a justiça a que tinha direito e também reforçou sua falsa insanidade. A vingança contra essa personagem teve seu ponto alto no capítulo de ontem: A falha moral do delegado eclodiu, ele é um pedófilo com requintes de psicopatia.
Para chegar a Vinicius foi preciso enxergar com lentes microscópicas o drama de Laura, vítima de abuso sexual infantil cometido pelo seu padrasto. A jovem e talentosa atriz Bella Piero, vem desenvolvendo muito bem sua personagem marcada pelas cicatrizes no corpo e na alma (Sempre com roupas escuras que lhe cobriam todo corpo, sempre cabisbaixa, olhar assustado, com dificuldade de comunicação, ela encarnou bem o tom de seu papel). Não foi fácil chegar a ele, toda uma teia de indícios foi construída até a cena catártica do julgamento de ontem. A polêmica sessão de hipnose (deixo essa discussão de mérito profissional para quem entende, eu fico com a ficção) realizada por Adriana fez emergir de sua memória os abusos sexuais que sofreu.
Essa cena foi construída com muita sutileza, repleta de alegorias e símbolos (confesso que fiquei com medo de como seria mostrado). A casa de bonecas, num mundo em miniatura com cores solares (ecos de Alice no país das maravilhas), foi invadida pelas botas escuras e pesadas do criminoso com suas muitas mãos gigantes como uma criatura monstruosa que toda criança associaria ao perigo. A cena ficou num limite elegante entre o dito e o não-dito.
Voltemos ao capítulo de ontem. O julgamento do delegado me parece que irá figurar entre as cenas antológicas da telenovela brasileira. Todas as provas levantadas pareciam ser em vão para punir o criminoso, destaque para a atuação do advogado de defesa, com retórica irretocável conseguia desfazer e refutar todas as acusações. Até que surge a testemunha-chave, como nos grandes filmes de tribunal nos quais tudo acontece nos 45 minutos do segundo tempo quando o jogo parece perdido, a diarista que trabalhou na casa de Laura na época em que sofreu as sucessivas violações de sua infância.
Tiana, Ilva Niño (nossa eterna Mina, que acaba de se recuperar de um câncer, borrando as fronteiras entre realidade e ficção mais uma vez), numa entrada triunfal, revela todos os segredos que assistiu silenciosamente naquela casa com tanquinho de tartarugas. Num monólogo comovente pede perdão a Laura, que lhe perdoa em um balbucio eloquente. Diante do depoimento cabal, só coube ao delegado confessar tudo e revelar seus crimes hediondos, num discurso cínico típico dos psicopatas (humilhou a esposa-mãe ao extremo, outra grande atuação, sua face foi se transmutando ao longo do júri entre a segurança dúbia e o desespero comovente ao cair em si) e ainda apontando seu fel para o juiz e Sofia como as próximas vítimas do plano de Clara.
 Daí em diante acho que foi o clímax de ontem, a reação da plateia, mostrada em cada face, em cada olhar, em cada gesto, tudo isso em silêncio, semelhante aos coros do teatro grego, eles iam com seus gritos silenciosos mostrando a indignação diante daquela máscara que caia e revelava a verdadeira face de um monstro. Quem assistiu ao julgamento, boa parte das personagens da novela, representou metonimicamente um júri popular que não perdoa o abusador infantil, era a personificação da opinião pública.
A chegada de Vinicius à cadeia, sua descida aos infernos, foi também significativa. Ao se despir de suas roupas lentamente para vestir o uniforme de presidiário, a câmera deu um close em suas botas, símbolo de seu poder sobre as vítimas e foi logo avisado pelo diretor do presídio o que costuma acontecer com criminosos como ele na cadeia, de acordo com o código dos presidiários, certamente um spoiler do que ocorrerá.
Ao final do capítulo novamente surgiu a campanha contra o abuso infantil, dando álibis de verossimilhança para a trama, bem ao modelo Glória Perez, pioneira nessa estratégia de mershanndising social, trazendo campanhas reais para o centro da narrativa. É a ficção trabalhando a serviço da sociedade, esclarecendo, discutindo e informando sobre um tema tão complexo e necessário. Creio que cenas como as de ontem fazem muitas pessoas abrirem os olhos para essa questão grotesca e reafirmam os dados  estatísticos que sempre apontam que a maioria dos abusos sexuais são cometidos por alguém muito próximo e de “confiança”, gente acima de qualquer suspeita.
 Voltemos à Clara e sua Hybris, agora faltam 2, o Juiz e sua grande algoz, Sofia, mas há indícios de que há um outro vilão se anunciando, Renato (e em paralelo Gael vai se redimindo) e ela terá que reelaborar seus planos. O mal da vingança é que ela te cega, assim como a cobiça pelas esmeraldas também, e talvez o preço a pagar por ela, seja uma Vitória de Pirro, na qual os ganhos da guerra não valem tantas perdas no caminho. Mas no caso de Vinicius a justiça se cumpriu para nossa felicidade e emoção profunda durante o capítulo de ontem....Continuemos na plateia desse espetáculo...Fechem as cortinas para o monstro....Esse já foi expulso do Paraíso...


terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

O Outro e A outra forma da água


                                                                               Para Chico Lima e sua cintilação do olhar

Assisti ontem nesse feriadão de Carnaval (esse é o meu bloco) ao novo filme de Del Toro, A forma da água, com mais de uma dezena de indicações para o Oscar. Curiosa a princípio pelo título enigmático, guiada pelo prazer que tive com O labirinto do Fauno, ansiosa para saber o motivo de tantas indicações e motivada pelas recomendações especiais de 3 amigos cinéfilos (João Evangelista, Gleidson Ramos e Juliana Salles), devo dizer que todos estavam certos, é mesmo um grande filme, daqueles que causam o tal estranhamento sistematizado pelos formalistas russos.
O argumento principal da trama é insólito (aquilo que não soe acontecer), uma faxineira muda apaixona-se por uma Criatura aquática estranha(meio anfíbio, meio peixe, meio homem) capturada nas águas da América do Sul pelos americanos em plena Guerra Fria, plano de fundo político do filme (em O labirinto o cenário de fundo é a ditadura de Franco). Ela trabalha em uma espécie de laboratório secreto bem aos moldes do clima de espionagem e sabotagem entre essas duas potências bélicas nos anos 60. Sua rotina maçante e quase robótica é despertada pela chegada da Criatura aquática.
Em um dos diálogos ficamos sabendo que para os nativos da região, a criatura era considerada um Deus, fato que se confirmará no final. Ancorado em excelente fotografia, cenários, trilha sonora, figurinos e jogo de luz, o filme nos remete  todo tempo à uma atmosfera onírica aos moldes dos contos de fadas (há ecos de Amelie Poulain). Vale ressaltar, que há muitos outros contos de fadas e lendas construídos através de laços afetivos entre criaturas de mundos diferentes ou espécies diferentes tais como A Pequena Sereia, A Bela e  a Fera ou King Kong dentre vários exemplos, inclusive nas diversas mitologias.
            O caráter fabular da narrativa é confirmado no início e no final pela voz de um narrador que nos introduz na trama, que mais tarde ficamos sabendo que se trata de Giles, o melhor amigo de Elisa, é esse o nome da protagonista. É interessante notar que para todos os seus superiores ela é a faxineira muda, mas seus dois amigos, Giles e Zelda (brilhantes coadjuvantes, Octavia Spencer arrebata como sempre, ele o gay artista velho e solitário, ela a faxineira negra e mal casada) seu nome é sempre pronunciado com muita força, pois um dos motes principais do filme é a comunicação com o outro, esse estranho.
Daí chegamos na tal alteridade (alter= outro), creio que a pedra de toque do filme. A Criatura, esse outro estranho, desperta sentimentos e interesses diversos a todos ao seu redor. Os interesses políticos das duas nações, o interesse científico do cientista russo, que tocado pelo seu lado de pesquisador acaba por arrepender-se de sua sabotagem e se aliará aos “sem voz” do filme para realizar a retirada da Criatura do laboratório e tentar salvar sua existência,  o interesse amoroso de Elisa e generoso de Giles que depois de mais uma decepção profissional e afetiva resolve ajudar no plano mirabolante da fuga, também entra aí Zelda que por sua amizade por Elisa completa a tropa da salvação. Todos esses motivados em dar um sentido às suas vidas vazias e a seus papéis subalternos, posição social ratificada sempre pelo Chefe do lugar, antagonista por excelência, tão prepotente que acha que Deus se parece com ele, jamais com a Criatura ou com Zelda.
A riqueza metafórica e alegórica do filme é composta de infinitas camadas que creio não conseguir alcançar em sua profundidade, daí tantos parêntesis nesse texto. Comecemos pela água, a grande imagem do filme, explícita no título. Se a água é amorfa e toma a forma do seu recipiente, ela terá um sentido único para cada um. E ela surge sob diversas formas, no ferver dos ovos, no banho, na chuva, no rio, e é claro na sobrevivência da Criatura. Símbolo de vida e erotismo, essa carga semântica literalmente extravasa e transborda na tela, como na gloriosa cena do encontro erótico-amoroso no banheiro ente Elisa e Ele (agora não mais a Criatura) que respinga por todo prédio, não gratuitamente construído sobre o cinema Orpheum.
O ovo, outra metáfora da vida, é alimento para Elisa e para Ele, que também lhe nutre com música e carinho. Os dedos apodrecidos do Chefe exalam o mal cheiro de sua essência (cena boa quando Giles amassa o seu Cadilac verde-azulado, modelo de sua arrogância). Os cabelos renascidos e a cura dos ferimentos de Guiles por Ele mostra o seu vigor voltando depois de tantas frustações e a sua TV sempre passando romances e musicais alimentam os sonhos de Elisa, que em uma das cenas protagoniza um filme, onde finalmente solta sua voz.
Semelhante aos heróis míticos, a origem de Elisa é desconhecida, uma criança encontrada à beira de um rio e criada em um orfanato. O Chefe sugere que a sua mudez seja fruto de suas cicatrizes no pescoço, alguém pode ter cortado suas cordas vocais, fato que fica em aberto no filme. Há uma cena em que esse déspota a assedia e a humilha, pois na sua fala destaca a sua mudez e cicatrizes como uma espécie de argumento que ninguém mais se interessaria por ela.
Como uma história sempre puxa outras e outras, A forma da água me lembrou o olhar dos cronistas viajantes sobre O Novo Mundo, esse novo inapreensível pelos moldes de olhos velhos. Francisco Ferreira de Lima pesquisador do tema e hábil navegador dessas águas no seu livro O Brasil de Gabriel Soares de Sousa & outras viagens (2009, 7 Letras/UEFS), versando sobre esse espanto sobre o novo que nos seduz e apavora, resume a tríade que rege o espírito dessa  literatura: “Susto, espanto e maravilha. Com essas três palavras atingimos o ser profundo da literatura de viagem: Antes que qualquer coisa possa ser dita ou escrita, o viajante experimenta desconcertante sensação intima, uma espécie de cintilação do real, como a bem denominou Francis Affergan(1987). Nenhum código, qualquer que seja, será capaz de domá-la porque elas a todos eles resiste. É só através  dessa cintilação que a alteridade pode ser vivida em sua inteireza”(p.106-107)
Se na Literatura de Viagem o Outro eram os mistérios do Movo mundo, em A forma da água o Outro era a Criatura, Ele, o sem nome, já em nossas relações O Outro também nos seduz e apavora e nessas diferenças conhecemos mais sobre nós mesmos, nem que para isso tenhamos que mergulhar nos mistérios das águas pronfundas....Como nos versos islâmicos citados no final do filme:
“Impossibilitado de perceber Sua forma, encontro você à minha volta. Sua presença me enche os olhos com Seu amor, acalma meu coração, porque Você está em todos os lugares.”



quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

É tempo de tempo de amar

                                        Para minha mãe Antônia, fiel companheira dessa história e de tantas outras.

A novela das 18:00h, Tempo de amar, traz em si todas as virtudes de um bom folhetim de época. Sob a autoria de Alcides Nogueira e Bia Corrêa do Lago (argumento de Rubem Fonseca), o primeiro  já mostrou seu talento em outras produções de época seja como colaborador ou como autor principal (Força de um desejo, Direito de amar, Um só Coração, JK). Só agora nas férias tive tempo de apreciá-la como ela merece, e aceitei o convite para sentar-me como se estivesse na Confeitaria Colombo e degustá-la.  Esse horário é ingrato para nós mulheres desdobráveis. Começo a elogiar a estética da trama, a fotografia e cenários, sejam do Portugal interiorano com suas quintas e casas de pedra, ou do Rio de Janeiro do final dos anos 20, estão belamente representados e funcionam como molduras para a narrativa. Vale destacar o enxerto de imagens de época que conferem mais beleza e veracidade à tela da ficção.

A pesquisa histórica também é digna de nota. Temos como pano de fundo todas as questões que pulsavam na nossa Belle epoque tropical. Um Brasil pós-escravidão, vivendo as primeiras décadas da República, se assentando naquilo que começaríamos a chamar de nossa modernidade convivendo com os resquícios coloniais, urbanização, industrialização, imigração, organização das relações trabalhistas (Vide Pepito e as geleias Supimpa), jogadas políticas, sobrados e cortiços, movimentos culturais, boemia. É interessante notar um rebuliço nas classes sociais e posições que começam a se mexer, como é o caso da megerinha de Débora Evelyn que faz de tudo para manter a pose de um status quo que já não possui ou acha que possuiu.  Observem as cenas do Grêmio onde os jovens da trama discutem feminismo, literatura, racismo, artes, inclusive com a presença de Pixinguinha e Gilka Machado. Há também muitas cenas de rua e ambientes sociais variados, bares, cafés, cinemas, confeitarias e o simbólico cabaré enfatizando bem o frêmito do período, como numa crônica de João do Rio ou Bilac.

Sobre o eixo central paira o tema dos temas de todos os folhetins: O drama amoroso de Maria Vitória e Inácio e suas agruras para conseguir viver esse sentimento de além e aquém-mar. Até uma fadista temos (Quem diria que Magda poderia!) para alimentar mais a coita de amor. Como soe acontecer há os vilões dispostos a separar o casal. Dessa vez duas vilãs com V maiúsculo. Desse lado do oceano, Lucinda, surpreendente Horta (virei fã depois de Elis), e toda sua carga de rancor e cicatrizes. Do lado de lá do Atlântico, Delfina, brilhante Sabatella, com seu desejo de reparação que lhe cega (ecos de juliana de O primo Basílio). O tema dos temas que atravessa os séculos está magistralmente representado na abertura com casais que atravessam a nossa cultura: Adão e Eva, Helena de Troia e Páris, Romeu e Juileta, Zumbi e Dandara e Lampião e Maria Bonita em quadros que vão se superpondo para retratar a ideia da força do amor dos protagonistas. Ao lado deles na trama, outros romances vão surgindo e também nos encantando, seja na burguesia ou no proletariado, ou melhor ainda quando se misturam como o médico e a doméstica. É mesmo uma novela de amor e como amor rima com humor, há cenas bem cômicas como a de Seu Geraldo e Dona Nicota na Festa dos Porcos...
A trama é bem construída e parece ter espaço para todas as personagens aparecerem um pouco e todas têm alguma complexidade. Desde o gigante Tony Ramos aos bem novatos como os jovens imigrantes. E por falar em personagens, fomos brindados com a aparição de Ester Delamare (Malu Mader), a baronesa de Sobral de Força de um desejo, uma das melhores novelas de época que já tivemos. Um show de intertextualidade, não só cruzando os enredos, mas também cruzando os tempos, pois uma das suas falas foi sobre o fato de que agora os títulos de nobreza não mais importavam.
Sempre é tempo para falar de amor, sempre é tempo para boas histórias sobre esse “Um não sei quê, que nasce não sei onde; Vem não sei como; e dói não sei porquê.” Continuemos...Afinal:

Balada do amor através das idades
 Eu te gosto, você me gosta 
desde tempos imemoriais. 
Eu era grego, você troiana, 
troiana mas não Helena. 
Saí do cavalo de pau 
para matar seu irmão. 
Matei, brigamos, morremos. 
Virei soldado romano, 
perseguidor de cristãos. 
Na porta da catacumba 
encontrei-te novamente. 
Mas quando vi você nua 
caída na areia do circo 
e o leão que vinha vindo, 
dei um pulo desesperado 
e o leão comeu nós dois.
Depois fui pirata mouro, 
flagelo da Tripolitânia. 
Toquei fogo na fragata 
onde você se escondia 
da fúria de meu bergantim. 
Mas quando ia te pegar 
e te fazer minha escrava, 
você fez o sinal-da-cruz 
e rasgou o pito a punhal.. 
Me suicidei também.
Depois (tempos mais amenos) 
fui cortesão de Versailles, 
espirituoso e devasso. 
Você cismou de ser freira.. 
Pulei o muro do convento 
mas complicações políticas 
nos levaram à guilhotina.
Hoje sou moço moderno, 
remo, pulo, danço, boxo, 
tenho dinheiro no banco. 
Você é uma loura notável 
boxa, dança, pula, rema. 
Seu pai é que não faz gosto. 
Mas depois de mil peripécias, 
eu, herói da Paramount, 
te abraço, beijo e casamos.
Carlos Drummond de Andrade