sábado, 12 de março de 2016

As Regras do jogo – O juízo final


O final de As Regras do jogo  já não guardava tantos segredos assim. Além do assassinato de Gibson (o mistério foi curto, não virou uma questão nacional como a de Odete ou Salomão), restavam poucos desenlaces.  O ápice se deu no tabuleiro de xadrez com todo os vilões reunidos na mesma sala e vestidos de preto e branco prontos para o xeque-mate com os mocinhos Juliano-Dante(esses só mocinhos mesmo e muito bons representantes do Bem), jogo que inspirou a trama como mostrado em sua abertura. A luta do bem e do mal, representada por personagens ambíguas que oscilavam o pêndulo para lá e para cá todo o tempo, jogou também conosco que oscilamos sobre qual partido tomar. Sejamos sinceros, não somos tão bonzinhos assim, queríamos um final feliz para Atena e Romero, e Ascânio é claro. Mas também adoramos os casamentos e as crianças(Merlot contribuiu bastante, até a cobertura de Copacabana ficou pequena), símbolo maior da perpetuação da vida e do final feliz em contínuo.

Vários diálogos durante a trama reforçavam essa idéia de que não somos uma coisa só, ouvimos de Zé Maria, que ia da extrema ternura ao bruto ódio na mesma cena, que “ninguém é uma coisa só”, temos nossa luta diária entre nossos anjos e demônios. Romero Rômulo era o principal símbolo dessa duplicidade, lutando o tempo todo com essas faces culturalmente dicotômicas. Talvez sua doença, um pouco esquecida no correr da história, fosse uma metáfora dessa luta que o punha em processo degenerativo, carnavalizado em ritmo de rock and roll. A fala de Juliano para ele sobre sua disputa constante na hora de apertar o gatilho foi bem emblemática e, por fim, ele optou pelo bem, como soe acontecer nos finais. Ele foi purificado pelo amor, ainda que bandido, de Atena e pela lembrança afetuosa de Djanira.

Penso que a questão principal da facção perdeu um pouco o foco no correr do tempo, mas ainda assim somou muitos acertos. Como trama realista e verossímil que foi, os ecos do momento político estridente que vivemos reverberaram nos discursos dos protagonistas nesses últimos dias, acertou em escancarar a força do crime organizado e seus tentáculos em todos os espaços, além das Ongs e Fundações de fachada que pipocam nos noticiários de tempos em tempos. Creio ainda que a novela brilhou mais nos núcleos secundários como a excêntrica família de Feliciano e a turma da Macaca.

A idéia da Macaca como espaço idílico, colorido e solar onde os de fora corriam para resolver seus problemas e crises, a despeito de que os habitantes de lá traziam outros tantos problemas, foi muito feliz. O quarteto Oziel-Indira-Rui-Tina nos rendeu boas cenas, o drama de Domingas e Juca foi bem explorado(  dispensaria o drama deslocado e facilmente descartável de César/Rodrigo), o universo do funk e das "Mandada" uma deliciosa caricatura, Adisabeba poderosa como a Jocasta do Morro.

Assim vamos concluindo que não foi uma grande trama, mas uma trama com grandes cenas e texto irretocável. Concordemos que é muito difícil fazer outra Avenida Brasil, mas João Emanuel Carneiro é uma estrela da nova geração e não vai viver sob a sombra de um sucesso único, como já mostrou em A Favorita, além de contar com colaboradores talentosos como o baiano (feirense) Claudio Simões. Tony Ramos ainda consegue ficar melhor a cada papel, aqui se metamorfoseando várias vezes para ocultar suas verdadeiras intenções, falando eloquentemente pelo olhar e pelos silêncios. Tonico Pereira, brilhou, solou com Ascânio, despertava em nós sentimentos que variavam do asco à piedade em segundos, era um cordeiro em pele de lobo e vice-versa. Vamos em frente e Vitória na Guerra pela audiência, porque segunda vamos navegar em outras águas que já nos convidam a mergulhar nesse outro Brasil. Salve, Velho Chico!

 

 

13 comentários:

  1. Parabéns, Alana. Excelente análise. Valeu !

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  2. Parabéns, Alana. Excelente análise. Valeu !

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  3. Alana, adorei o texto! De fato, sem grandes segredos para revelar o último capítulo. Eu gostei da coreografia da cena em que Romero morre. Eu acho o Alexandre Nero um "ator e tanto". Não digo "grande", porque numa novela em que temos o Tony Ramos atuando junto, este acaba superando todos! Amando a trilha sonora do Velho Chico já. Esperando ansiosa, gosto de histórias com ambiência rural, interiorana!

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    1. Realmente, a coreografia da morte foi genial, assim como o sangue no tapete. Continuemos a navegar!

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  4. Alana, seu texto, como sempre, é fascinante, uma leitura atenta das cenas e de detalhes que às vezes passam despercebidos por nós. Parabéns! Ansiosíssima pelas futuras análises de "Velho Chico", cuja trilha sonora já me arrebatou antes mesmo da novela começar.

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  5. Obrigada, também ansiosa por navegar nessas águas...

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  6. Só textos como esse pra salvar uma novela tão mediana. Até que prometia, mas ficou com uma barriga enorme no meio do caminho. Ascânio salvou todos os capítulos que apareceu, Toni Ramos dispensa comentários e o autor foi muito feliz no final que criou pra Atena. E só. Alguns personagens que eram muito bons acabaram ficando em segundo plano que nem a Belisa e as ótimas mandadas e deram um espaço enorme pra uns tipos como César e Chatóia. A Regra do Jogo eu confesso que terminei só porque quem não tem cão caça com gato mesmo. Acredito e torço pra o Velho Chico ser um novelão, uma pena que eu vá perder os 15 primeiros capítulos, mas nada a internet não resolva. Muito boa sua análise. Vou acompanhar as próximas.

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    1. Obrigada, caro leitor! Continuemos nosso diálogo pelas águas do São Francisco.

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  7. Ótimo texto. Forma muito original de ler novelas. Parabéns

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    1. Obrigada! Esse é um espaço de diálogo para quem gosta de ver esse algo mais. Continue nos visitando!

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  8. Tudo são olhares... o ver. Eu, fã de Tonico, o vi igual a tantos outros papéis, fazendo ele mesmo. Ascânio não foi mais nada que o Mendonça (de A grande família) revisitado. Tony Ramos é de estremecer. Ele sim roubou todas as cenas. Suzana mais uma vez ela mesma com seu megahair também repetido. Ah, sim, aquele rock da morte de Romério e o sangue rasteado me remeteu a Cem anos de Solidão. Um deleite. José de Abreu canastrão como sempre. Na realidade eu reparei bem alguns papéis secundários que me pareceram bem teatrais. Como o de Jackson Antunes - depois de quase morrer com uma doença na vida real - volta por cima com suas interpretações fortes. Edu Moscovis como Orlando deu show e botou Gibson no bolso. A entrada de Déborah Evelyn foi acertada, a atriz tem uma carga dramática típica de quem ficou mesmo aprisionada por 15 anos em um quarto. Concordo plenamente que seria dispensável a participação de Carmo Dalla Vecchia com suas caras e bocas de todo sempre, amém! Este só consegue perder na canastrice para o José de Abreu. No mais, o bordão de vitória na guerra foi levada pelas águas do "novo" Chico. Novo sim, pois a arte é sempre um novo olhar, um novo ver.

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  9. Obrigada, caríssimo leitor, pela troca constante e profícua de olhares!

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