quarta-feira, 11 de julho de 2018

O ser tão profundo de Onde nascem os fortes


A série Onde nascem os fortes de George Moura e Sérgio Goldenberg, dupla de roteiristas e cineastas de grande talento, já demonstrado em obras como Amores Roubados, O rebu e O canto da sereia, vem chegando ao seu final com êxito e se mostrou ao longo da trama como uma obra de fôlego, complexidade, escolha de elenco impecável e narrativa instigante O horário das 23:00 h tem algumas vantagens e o fato de ser uma obra fechada também, os autores contam com total liberdade de criação e não sofrem interferências da audiência. Talvez a única queixa que tenhamos a fazer seja o seu tamanho, creio que menos capítulos resolveriam bem a trama sem grandes prejuízos para o enredo.
Um misto de road movie, conflito familiar e drama de vingança se entrelaçam numa história comovente que gira em torno dos filhos gêmeos de Cássia, a visceral mãe coragem de Patrícia Pillar. Maria (Alice Wegmann) e Nonato (Marco Pigossi), em busca de aventuras na natureza com suas bicicletas, saem de Recife e vem para Sertão desbravar trilhas. O fato de serem gêmeos nos põe diante do tema do duplo, mote tão explorado na literatura universal. Nonato com sua curta participação, funcionará ao longo da trama como um espectro a guiar o enredo. O seu desaparecimento muda todo o rumo dessa aventura dos jovens e faz Maria se transformar numa Donzela Guerreira que busca com força desmedida descobrir o que aconteceu com seu irmão. Notemos que ela é uma personagem meio andrógina, frágil e forte, com suas roupas vaporosas e seus cabelos curtos, em determinado momento se vestiu de homem com direito a chapéu de vaqueiro a la Diadorim. Aliás, as referências ao universo rosiano aparecem com força. Sertão esse lugar sem porteira.
O lócus da trama, Sertão, é um microcosmo do Brasil profundo, quase medieval, com leis próprias, ou sem leis, ou leis que derivam ao gosto dos seus representantes como o juiz Ramiro (Fábio Assunção) e o delegado Plínio (Enrique Diaz), tão convincentes em suas atuações que nos provocam asco, ambos beirando a psicopatia. A questão mística também é sintomática desse universo, a figura de Samir, mais uma vez Irandhir Santos mostrando que é um dos melhores atores da nova geração, é uma das grandes personagens da trama. Esse líder espiritual da Comunidade de Lajedo dos Anjos, uma espécie de Terra Prometida, com suas chagas de estigmata ainda sofre na carne e na alma as angústias humanas que precisam ser expiadas eternamente.
Pedro Gouveia (Alexandre Nero, talhado para protagonistas fortes), em principio parecia ser o grande vilão da trama, foi se transmutando ao longo dos capítulos e despertando nossa empatia. É o tipo que perdoamos as falhas morais em nome do seu outro lado, pai amoroso e homem justo. E o que dizer de Ramirinho (Jesuíta Barbosa, outra fera), com sua Shakira do Sertão, uma atuação tão compungente que nos arrebata com sua dor de Assum Preto ou de José Dumont, com seu mítico Zé das Cacimbas?
A trama seria apenas uma história de Crime Castigo, não fosse o amor que esbarrasse no caminho das personagens. Maria/Hermano/Walquíria/ Simplício, Pedro/Rosinete/ Cássia/ Ramiro e outras ligações perigosas. Destaquem-se também as mutações de Rosinete, brilhante Débora Bloch, de mãe sofredora e contrita a uma mulher que busca sua felicidade. A intensidade dos sentimentos que vão da posse ao amor sem reservas transbordam na nossa tela alaranjada como o sol e a poeira das estradas do Sertão.
Outro ponto a destacar na trama é a presença dos fosseis na história, o fato de Sertão ser um sítio arqueológico. Parece-me a grande metáfora da trama, as camadas a escavar do humano que sempre guardam grandes mistérios. O revolver da terra faz o tempo voltar e desencavar segredos insondáveis. Foram muitas cenas memoráveis até então, destaco aqui  uma que comoveu muito, Cássia desenterrando a cova de Nonato com as próprias mãos, encerrando sua busca pelo corpo do filho.
A trama já está chegando ao fim, como bons espectadores aguardemos que a justiça seja feita e os maus punidos, mas fiquemos sempre atentos, pois nem tudo é o que parece nas paragens do Sertão, afinal “o diabo vige dentro do homem, os crespos do homem — ou é o homem arruinado, ou o homem dos avessos. Solto, por si, cidadão, é que não tem diabo nenhum. Nenhum!”. Eu conto e vocês botam o ponto...



sábado, 26 de maio de 2018

Sob e sobre o Segundo Sol: A morte e a morte de Beto Falcão



A nova novela das 21:00h, Segundo Sol, de João Emanuel Carneiro, começou antes de começar. A polêmica sobre a ausência de atores negros numa trama que se passa num estado onde a maioria da população é negra surgiu com força nos dias que antecederam sua estreia, assim que as primeiras chamadas foram ao ar. Como professora de literatura e estudiosa das relações entre Literatura e Telenovela, declinarei dessa discussão, pois concordo em parte com a questão que certamente traria mais verossimilhança para a trama, mas por outro lado, como defensora da arte como uma manifestação humana que não tem como função exclusiva retratar somente o real, defendo a novela como veículo de entretenimento e reflexão e sem esquecer que, sobretudo, é um produto mercadológico, por sinal o mais rentável da Televisão. A Bahia é só a moldura. Lanço, portanto, meu olhar para o terreno que costumo pisar, a análise textual.


 O título da novela já sugere a ideia de recomeço, por isso a passagem de tempo de 18  anos para que nós telespectadores, conhecedores do embrião da trama mostrada nos primeiros dias na novela, possamos compreender seus desdobramentos no tempo atual. E esses são muitos e variados. O eixo central gira em torno de Beto Falcão, cantor de Axé já em decadência que é convencido por sua entourage vigarista, irmão/empresário/canalha e namorada/ambiciosa/mau-caráter que ele vale mais morto que vivo, pois sua falsa morte faz com que  volte a valer no mercado artístico e publicitário, até romaria houve em sua porta mostrando a hipocrisia dos fãs que já nem lembravam do cantor. Daí todos lucram com o falso mito que se forma. São claros os ecos de Roque Santeiro, obra-prima de Dias Gomes. Assim como Roque, Beto vira mito e passa a viver de sua mitificação, como na fictícia Asa Branca que passa a ter no falso heroísmo de Roque sua principal fonte de renda. Até uma sombra de Porcina temos, a personagem de Débora Secco assume a postura de viúva oficial e vive para alimentar seus direitos autorais e manter vivo o legado do marido.


Além desse intertexto com o grande dramaturgo, autor de sucessos como Saramandaia e Mandala, temos também o diálogo claro com Jorge Amado, como não poderia ser diferente numa novela que tem como cenário Salvador. Inclusive houve uma cena em que Miguel/Beto lê Tieta do Agreste (por sua vez inspirada em A visita da velha Senhora, as relações entre os textos são inesgotáveis), aquela que volta para se vingar, assim como Luzia Batista (Cansada de Guerra, quanto sofrimento em tão poucos dias). Os influxos amadianos são muitos, mas gostaria de focar o olho na Casa Grande do núcleo rico da novela. Inclusive, a expressão Casa Grande e Senzala (Gilberto Freyre ainda tem muito a dizer sobre nós) já foi citada diretamente por Roberval, Fabrício Boliveira, que protagonizou uma cena magistral ao descobrir sua paternidade.


Filho do patrão com a empregada, aquela famosa “como se fosse da família”, transbordou sua revolta justa com um brilhante texto e sua saída da Casa sob uma chuva copiosa  deu mais dramaticidade à cena (nos remete também ao filme Que horas ela volta?). O discurso de Roberval nos levou a uma passsagem de Jubiabá:



 “A vida no Morro do Capa Negro era difícil. Viviam das tarefas no cais, carregando cargas pesadas ou do trabalho em casas ricas. As crianças já sabiam seu destino; o trabalho no cais ou em fábricas enormes. Enquanto isso, os meninos ricos iam ser médicos, advogados, engenheiros, homens ricos. Também, podiam ser escravos desses ricos. Antonio Balduíno queria outro destino, desejava ser livre como Jubiabá e Zé Camarão. Tudo o que fez depois, veio das histórias de valentia ouvidas à porta da casa da tia Luísa. E elas falavam daqueles que se revoltaram contra o trabalho escravo, dedicado ao branco. Mas, Balduíno era também moleque travesso, líder das coisas malfeitas no morro. 


Roberval, assim como Antonio Balduíno, deseja outra vida. Por agora, trilha caminhos tortuosos, aguardemos o que virá, é uma personagem que promete. Até então acho essa Casa o melhor núcleo da novela, com seus segredos, relações familiares complexas e seu cruzamento com o eixo central através da adoção problemática de Manuela, que acaba por reproduzir,com seu irmão Icaro, o mesmo drama de Roberval e o seu patrãozinho Edgar.


Passados os 18 anos, todos vivem sob esse segundo sol posto no passado que selou a separação entre Luzia e seus três filhos por artimanhas das vilãs Carola e Laureta, que volta agora para tentar reparar as injustiças sofridas e as pontas da sua vida interrompida. Seus três filhos são todos rebeldes e sofrem dramas diversos, drogas, rejeição, desajustes emocionais e farsas identitárias dentre outros conflitos.


Ainda destaquemos, nesse raiar do Segundo sol, a amoralidade de Laureta, uma Carminha mais perversa porque não gosta de ninguém, só pensa em lucrar e para isso não mede esforços, até leilão virtual de mulheres faz em sua mansão-club Sodoma e Gomorra (já deu saudade de Dona Caetana  e sua boate raiz), a bela amizade entre o Gringo e Luzia, o sotaque bem acertado de alguns como Ícaro (Chay Suede) e Ionan  (Armando Babaioff,). Tudo leva a crer que investiram bastante na pesquisa das expressões do nosso baianês, confesso que está massa ouvir tanto “mainha”, “se saia”, “oxe oxe oxe” e  “osadia”. E o colorido e a trilha sonora da abertura também estão de lenhar, a mistura de Cassia Eller com Baiana System ficou de torar.


JEC é conhecido como autor de tramas fortes, nos deu o maior sucesso dos últimos anos com Avenida Brasil, além de bagunçar nossa cabeça com A Favorita. O situo na linhagem de Gilberto Braga, com seus conflitos de forte carga dramática, jogo social em torno do poder do dinheiro, relações familiares densas e seus famosos ganchos que nos deixam ligados até o dia seguinte. Acho que O segundo sol até começou meio morno, mas já começou a esquentar....Continuemos na cocó, se ligue aí..

P.S. Eu sou baiana de Feira de Santana e creiam:  Existem muitas Bahias...




quinta-feira, 10 de maio de 2018

O outro lado do paraíso, algumas considerações antes do fim



Essa semana estamos acompanhando o final de O outro lado do Paraíso de Walcyr Carrasco. Não creio que seja uma novela que entrará para a lista das favoritas do país marcando seu imaginário, não a considero uma grande novela como um todo, mas digamos que seja uma boa novela, que cumpre seu duplo papel de entretenimento e discussão de temas polêmicos, com grandes pequenos momentos. Walcyr já nos deu belos banquetes dramatúrgicos  como em O Cravo e A rosa ou Amor à vida, já faz parte do panteão dos melhores autores e segue firme a nos contar boas histórias.

Dentre esses grandes pequenos momentos destaquemos como ponta de lança a atuação marcante dos atores da terceira e já quarta idade. Fernanda Montenegro que estamos acostumados a ver, em sua maioria, em papeis de mulheres sofisticadas e urbanas, encarnou sua Dona Mercedes com uma maestria que nos faz lembrar uma sacerdotisa ou sibila mítica. Sua sábia rezadeira nos deu lances emocionantes durante a trama, que vão do enfrentamento e vitória sobre a morte duas vezes (uma no começo da trama outro agora no final quando botou Zé Vitor para correr e fez seu “mal” escorrer pelas veias) a momentos de grande graça quando, como uma mocinha romântica, amarelou diante do altar onde seu noivo Josafá a esperava. E que parceria desses dois! Lembrando O amor nos tempos do cólera (ela mesma atuou na adaptação do romance de Gabo para o cinema) ou O Casarão, esses especiais amantes, mais de alma que de corpo, esperaram décadas para enfim viverem seu amor/cumplicidade/amizade especial. Ele, aquele homem cheio de dignidade e valores morais, se rende à sua amada que não consegue controlar de jeito nenhum, respeitando, mesmo cheio de medos, sua missão guiada por  “Eles”.


 E Dona Caetana, a decana do time, nossa Laura Cardoso, brilhando como a experiente cafetina entre os paetês, neons e segredos da Love Chic, acho que será um dos seus grandes momentos na TV pela desenvoltura e humor que deu o tom à grande Dama da Noite. Uma espécie de Fada Madrinha controversa para as primas do Bordel que vivem seus sonhos de Gata Borralheira, mostrando que nem sempre  "fazer a vida" é uma escolha. Mas Ana Lúcia Torre, também roubou os holofotes como Dona Adneia, no seu microcosmo familiar, dentro do seu AP de onde saiu poucas vezes, refletiu tão bem as agruras de uma mãe entre o modelo ideal de família que ela acreditava ser o melhor para seu filho até aceitar a família  que o faria feliz de fato. Dentro do seu AP tivemos as cenas mais engraçadas da novela, capitaneadas por ela e na sua crença na cura gay. Sua cena essa semana de aceitação do amor entre Samuca e Cido foi muito emocionante, após muito relutar (a apneia não colou) ela os abraça formando a família possível, amor de mãe em estado bruto. E seu monólogo posterior foi golpe de mestre do autor, ela sozinha rearrumando o novo lar, ajeitando as almofadas, recolhendo os farelos do bolo e se reinventando para aceitar que a felicidade do seu Tigrão  é com Cido (Zulu também surpreendeu) e chegando a constatação óbvia que não há cura porque não há doença. Sua voz foi uma espécie de voz da consciência social para a aceitação e conciliação.


Voltando ao núcleo central da novela, a vingança de Clara, ela enfim chega ao final da novela concluindo seu plano, só falta Sofia. Já um pouco vingada pela vida e tendo que ser cuidada por Stela, a filha que sempre rejeitou. Na cadeira de rodas ela ficou da mesma altura da “aberração” e teve que olhá-la de frente. O papel de Stela também é digno de nota, suas aulas de alfabetização para adultos iluminaram sua atuação. Durante sua recuperação tem que conviver com o que sempre quis esconder, houve alguma comoção na cena em que sua filha massageava seu rosto, mas ela é má por excelência e não há redenção para a vilã serial killer. Diferentemente de Gael que vem conseguindo a regeneração porque era dual. Depois de marido agressor punido pela Lei Maria da Penha, volta a ocupar os pensamentos da mocinha nada romântica. Como bom folhetim, ficou para o final a famosa pergunta Com quem ela vai ficar? Acreditamos que com Patrick, aquele amor cavalheiresco que mudou toda a sua vida para servir Sua Senhora, mesmo sem muitas garantias do final feliz.


Vale ainda lembrar que um dos temas mais fortes da novela foi a questão materna, como já disse em texto anterior. Foram muitos os modelos de relações de mães e filhos explorados na novela. Do abuso sexual pelo padrasto, da Grande Mãe do Quilombo, da mãe Naja que quer manipular a vida dos filhos e se redime pelo amor ao neto, da mãe que rejeita, da mãe-coragem que doa um rim, da madrasta que renega a enteada, da mãe adotiva Lívia que na hora do sequestro, dor extrema,  une-se a Clara e chamam Tomaz de nosso filho, aceitando que ele tem duas mães.


A novela em alguns momentos se perdeu um pouco se arrastando no meio do caminho, mas do meio para o fim recuperou o fôlego e nos fez ficar com vontade de assistir no dia seguinte. Aliás, ela passou a adotar o modelo do resumo do capítulo anterior e chama para o novo dia no inicio de cada episódio, ops, capítulo, imprimindo o ritmo de série à trama, pois essa filha do folhetim, que já foi radionovela, fotonovela, vai se transformando com os anos e se adaptando aos novos tempos onde enfrenta a concorrência de tantas outras telas, mas continua a nos convidar a sentar e assistir, torcendo pela justiça no final, onde o Bem sobrepuja o Mal, pois tudo que você faz um dia volta pra você, ao menos na ficção a Lei do Retorno é certa, com raras exceções...



quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

O Outro Lado do Paraíso: Entre a Hybris e a Mershandising Social

O tema da vingança atravessa a história da Literatura. Na mitologia grega temos como um dos grandes exemplos a personagem da tragédia de Euripedes, Medeia, que para vingar-se da traição do marido, Jasão, mata os filhos que tivera com ele. Em Hamlet, o herói vacilante vê-se obrigado a vingar o assassinato do seu pai que fora morto por seu tio para usurpar o trono, ainda casando-se com sua mãe. Em O Conde de Monte Cristo, o protagonista volta para cobrar vingança contra todos que o traíram. Esse último serve de inspiração direta para O Outro Lado do Paraíso. As personagens que encarnam esses planos de vingança geralmente são marcados pelo que os gregos chamavam de Hybris, a desmesura ou desmedida, ou seja, para executarem seu plano de vingança nada os detém, são capazes de tudo, até memso desafiarem os deuses e os códigos morais e sociais.
Clara se aproxima dessa característica, movida pela sede de vingança, ou justiça, dependendo do ponto de vista, ela voltou disposta a reparar o mal que lhe fizeram, para só depois cuidar de ser feliz. Começou seu plano vingando-se do médico que lhe diagnosticou como louca, facilitando sua internação. Para esse ela trouxe à tona sua orientação sexual escondida sob as sombras das cortinas sociais. Refeitos do escândalo que revelou que o Tigrão era Tigrete, o drama tornou-se núcleo cômico da novela. Agora era a vez do delegado, pois seu plano é urdido em ordem crescente relacionado à proporção do mal que lhe causaram. O delegado Vinicius (Flávio Tolezani) engavetou suas várias queixas de agressão contra Gael, sonegando-lhe a justiça a que tinha direito e também reforçou sua falsa insanidade. A vingança contra essa personagem teve seu ponto alto no capítulo de ontem: A falha moral do delegado eclodiu, ele é um pedófilo com requintes de psicopatia.
Para chegar a Vinicius foi preciso enxergar com lentes microscópicas o drama de Laura, vítima de abuso sexual infantil cometido pelo seu padrasto. A jovem e talentosa atriz Bella Piero, vem desenvolvendo muito bem sua personagem marcada pelas cicatrizes no corpo e na alma (Sempre com roupas escuras que lhe cobriam todo corpo, sempre cabisbaixa, olhar assustado, com dificuldade de comunicação, ela encarnou bem o tom de seu papel). Não foi fácil chegar a ele, toda uma teia de indícios foi construída até a cena catártica do julgamento de ontem. A polêmica sessão de hipnose (deixo essa discussão de mérito profissional para quem entende, eu fico com a ficção) realizada por Adriana fez emergir de sua memória os abusos sexuais que sofreu.
Essa cena foi construída com muita sutileza, repleta de alegorias e símbolos (confesso que fiquei com medo de como seria mostrado). A casa de bonecas, num mundo em miniatura com cores solares (ecos de Alice no país das maravilhas), foi invadida pelas botas escuras e pesadas do criminoso com suas muitas mãos gigantes como uma criatura monstruosa que toda criança associaria ao perigo. A cena ficou num limite elegante entre o dito e o não-dito.
Voltemos ao capítulo de ontem. O julgamento do delegado me parece que irá figurar entre as cenas antológicas da telenovela brasileira. Todas as provas levantadas pareciam ser em vão para punir o criminoso, destaque para a atuação do advogado de defesa, com retórica irretocável conseguia desfazer e refutar todas as acusações. Até que surge a testemunha-chave, como nos grandes filmes de tribunal nos quais tudo acontece nos 45 minutos do segundo tempo quando o jogo parece perdido, a diarista que trabalhou na casa de Laura na época em que sofreu as sucessivas violações de sua infância.
Tiana, Ilva Niño (nossa eterna Mina, que acaba de se recuperar de um câncer, borrando as fronteiras entre realidade e ficção mais uma vez), numa entrada triunfal, revela todos os segredos que assistiu silenciosamente naquela casa com tanquinho de tartarugas. Num monólogo comovente pede perdão a Laura, que lhe perdoa em um balbucio eloquente. Diante do depoimento cabal, só coube ao delegado confessar tudo e revelar seus crimes hediondos, num discurso cínico típico dos psicopatas (humilhou a esposa-mãe ao extremo, outra grande atuação, sua face foi se transmutando ao longo do júri entre a segurança dúbia e o desespero comovente ao cair em si) e ainda apontando seu fel para o juiz e Sofia como as próximas vítimas do plano de Clara.
 Daí em diante acho que foi o clímax de ontem, a reação da plateia, mostrada em cada face, em cada olhar, em cada gesto, tudo isso em silêncio, semelhante aos coros do teatro grego, eles iam com seus gritos silenciosos mostrando a indignação diante daquela máscara que caia e revelava a verdadeira face de um monstro. Quem assistiu ao julgamento, boa parte das personagens da novela, representou metonimicamente um júri popular que não perdoa o abusador infantil, era a personificação da opinião pública.
A chegada de Vinicius à cadeia, sua descida aos infernos, foi também significativa. Ao se despir de suas roupas lentamente para vestir o uniforme de presidiário, a câmera deu um close em suas botas, símbolo de seu poder sobre as vítimas e foi logo avisado pelo diretor do presídio o que costuma acontecer com criminosos como ele na cadeia, de acordo com o código dos presidiários, certamente um spoiler do que ocorrerá.
Ao final do capítulo novamente surgiu a campanha contra o abuso infantil, dando álibis de verossimilhança para a trama, bem ao modelo Glória Perez, pioneira nessa estratégia de mershanndising social, trazendo campanhas reais para o centro da narrativa. É a ficção trabalhando a serviço da sociedade, esclarecendo, discutindo e informando sobre um tema tão complexo e necessário. Creio que cenas como as de ontem fazem muitas pessoas abrirem os olhos para essa questão grotesca e reafirmam os dados  estatísticos que sempre apontam que a maioria dos abusos sexuais são cometidos por alguém muito próximo e de “confiança”, gente acima de qualquer suspeita.
 Voltemos à Clara e sua Hybris, agora faltam 2, o Juiz e sua grande algoz, Sofia, mas há indícios de que há um outro vilão se anunciando, Renato (e em paralelo Gael vai se redimindo) e ela terá que reelaborar seus planos. O mal da vingança é que ela te cega, assim como a cobiça pelas esmeraldas também, e talvez o preço a pagar por ela, seja uma Vitória de Pirro, na qual os ganhos da guerra não valem tantas perdas no caminho. Mas no caso de Vinicius a justiça se cumpriu para nossa felicidade e emoção profunda durante o capítulo de ontem....Continuemos na plateia desse espetáculo...Fechem as cortinas para o monstro....Esse já foi expulso do Paraíso...


terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

O Outro e A outra forma da água


                                                                               Para Chico Lima e sua cintilação do olhar

Assisti ontem nesse feriadão de Carnaval (esse é o meu bloco) ao novo filme de Del Toro, A forma da água, com mais de uma dezena de indicações para o Oscar. Curiosa a princípio pelo título enigmático, guiada pelo prazer que tive com O labirinto do Fauno, ansiosa para saber o motivo de tantas indicações e motivada pelas recomendações especiais de 3 amigos cinéfilos (João Evangelista, Gleidson Ramos e Juliana Salles), devo dizer que todos estavam certos, é mesmo um grande filme, daqueles que causam o tal estranhamento sistematizado pelos formalistas russos.
O argumento principal da trama é insólito (aquilo que não soe acontecer), uma faxineira muda apaixona-se por uma Criatura aquática estranha(meio anfíbio, meio peixe, meio homem) capturada nas águas da América do Sul pelos americanos em plena Guerra Fria, plano de fundo político do filme (em O labirinto o cenário de fundo é a ditadura de Franco). Ela trabalha em uma espécie de laboratório secreto bem aos moldes do clima de espionagem e sabotagem entre essas duas potências bélicas nos anos 60. Sua rotina maçante e quase robótica é despertada pela chegada da Criatura aquática.
Em um dos diálogos ficamos sabendo que para os nativos da região, a criatura era considerada um Deus, fato que se confirmará no final. Ancorado em excelente fotografia, cenários, trilha sonora, figurinos e jogo de luz, o filme nos remete  todo tempo à uma atmosfera onírica aos moldes dos contos de fadas (há ecos de Amelie Poulain). Vale ressaltar, que há muitos outros contos de fadas e lendas construídos através de laços afetivos entre criaturas de mundos diferentes ou espécies diferentes tais como A Pequena Sereia, A Bela e  a Fera ou King Kong dentre vários exemplos, inclusive nas diversas mitologias.
            O caráter fabular da narrativa é confirmado no início e no final pela voz de um narrador que nos introduz na trama, que mais tarde ficamos sabendo que se trata de Giles, o melhor amigo de Elisa, é esse o nome da protagonista. É interessante notar que para todos os seus superiores ela é a faxineira muda, mas seus dois amigos, Giles e Zelda (brilhantes coadjuvantes, Octavia Spencer arrebata como sempre, ele o gay artista velho e solitário, ela a faxineira negra e mal casada) seu nome é sempre pronunciado com muita força, pois um dos motes principais do filme é a comunicação com o outro, esse estranho.
Daí chegamos na tal alteridade (alter= outro), creio que a pedra de toque do filme. A Criatura, esse outro estranho, desperta sentimentos e interesses diversos a todos ao seu redor. Os interesses políticos das duas nações, o interesse científico do cientista russo, que tocado pelo seu lado de pesquisador acaba por arrepender-se de sua sabotagem e se aliará aos “sem voz” do filme para realizar a retirada da Criatura do laboratório e tentar salvar sua existência,  o interesse amoroso de Elisa e generoso de Giles que depois de mais uma decepção profissional e afetiva resolve ajudar no plano mirabolante da fuga, também entra aí Zelda que por sua amizade por Elisa completa a tropa da salvação. Todos esses motivados em dar um sentido às suas vidas vazias e a seus papéis subalternos, posição social ratificada sempre pelo Chefe do lugar, antagonista por excelência, tão prepotente que acha que Deus se parece com ele, jamais com a Criatura ou com Zelda.
A riqueza metafórica e alegórica do filme é composta de infinitas camadas que creio não conseguir alcançar em sua profundidade, daí tantos parêntesis nesse texto. Comecemos pela água, a grande imagem do filme, explícita no título. Se a água é amorfa e toma a forma do seu recipiente, ela terá um sentido único para cada um. E ela surge sob diversas formas, no ferver dos ovos, no banho, na chuva, no rio, e é claro na sobrevivência da Criatura. Símbolo de vida e erotismo, essa carga semântica literalmente extravasa e transborda na tela, como na gloriosa cena do encontro erótico-amoroso no banheiro ente Elisa e Ele (agora não mais a Criatura) que respinga por todo prédio, não gratuitamente construído sobre o cinema Orpheum.
O ovo, outra metáfora da vida, é alimento para Elisa e para Ele, que também lhe nutre com música e carinho. Os dedos apodrecidos do Chefe exalam o mal cheiro de sua essência (cena boa quando Giles amassa o seu Cadilac verde-azulado, modelo de sua arrogância). Os cabelos renascidos e a cura dos ferimentos de Guiles por Ele mostra o seu vigor voltando depois de tantas frustações e a sua TV sempre passando romances e musicais alimentam os sonhos de Elisa, que em uma das cenas protagoniza um filme, onde finalmente solta sua voz.
Semelhante aos heróis míticos, a origem de Elisa é desconhecida, uma criança encontrada à beira de um rio e criada em um orfanato. O Chefe sugere que a sua mudez seja fruto de suas cicatrizes no pescoço, alguém pode ter cortado suas cordas vocais, fato que fica em aberto no filme. Há uma cena em que esse déspota a assedia e a humilha, pois na sua fala destaca a sua mudez e cicatrizes como uma espécie de argumento que ninguém mais se interessaria por ela.
Como uma história sempre puxa outras e outras, A forma da água me lembrou o olhar dos cronistas viajantes sobre O Novo Mundo, esse novo inapreensível pelos moldes de olhos velhos. Francisco Ferreira de Lima pesquisador do tema e hábil navegador dessas águas no seu livro O Brasil de Gabriel Soares de Sousa & outras viagens (2009, 7 Letras/UEFS), versando sobre esse espanto sobre o novo que nos seduz e apavora, resume a tríade que rege o espírito dessa  literatura: “Susto, espanto e maravilha. Com essas três palavras atingimos o ser profundo da literatura de viagem: Antes que qualquer coisa possa ser dita ou escrita, o viajante experimenta desconcertante sensação intima, uma espécie de cintilação do real, como a bem denominou Francis Affergan(1987). Nenhum código, qualquer que seja, será capaz de domá-la porque elas a todos eles resiste. É só através  dessa cintilação que a alteridade pode ser vivida em sua inteireza”(p.106-107)
Se na Literatura de Viagem o Outro eram os mistérios do Movo mundo, em A forma da água o Outro era a Criatura, Ele, o sem nome, já em nossas relações O Outro também nos seduz e apavora e nessas diferenças conhecemos mais sobre nós mesmos, nem que para isso tenhamos que mergulhar nos mistérios das águas pronfundas....Como nos versos islâmicos citados no final do filme:
“Impossibilitado de perceber Sua forma, encontro você à minha volta. Sua presença me enche os olhos com Seu amor, acalma meu coração, porque Você está em todos os lugares.”



quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

É tempo de tempo de amar

                                        Para minha mãe Antônia, fiel companheira dessa história e de tantas outras.

A novela das 18:00h, Tempo de amar, traz em si todas as virtudes de um bom folhetim de época. Sob a autoria de Alcides Nogueira e Bia Corrêa do Lago (argumento de Rubem Fonseca), o primeiro  já mostrou seu talento em outras produções de época seja como colaborador ou como autor principal (Força de um desejo, Direito de amar, Um só Coração, JK). Só agora nas férias tive tempo de apreciá-la como ela merece, e aceitei o convite para sentar-me como se estivesse na Confeitaria Colombo e degustá-la.  Esse horário é ingrato para nós mulheres desdobráveis. Começo a elogiar a estética da trama, a fotografia e cenários, sejam do Portugal interiorano com suas quintas e casas de pedra, ou do Rio de Janeiro do final dos anos 20, estão belamente representados e funcionam como molduras para a narrativa. Vale destacar o enxerto de imagens de época que conferem mais beleza e veracidade à tela da ficção.

A pesquisa histórica também é digna de nota. Temos como pano de fundo todas as questões que pulsavam na nossa Belle epoque tropical. Um Brasil pós-escravidão, vivendo as primeiras décadas da República, se assentando naquilo que começaríamos a chamar de nossa modernidade convivendo com os resquícios coloniais, urbanização, industrialização, imigração, organização das relações trabalhistas (Vide Pepito e as geleias Supimpa), jogadas políticas, sobrados e cortiços, movimentos culturais, boemia. É interessante notar um rebuliço nas classes sociais e posições que começam a se mexer, como é o caso da megerinha de Débora Evelyn que faz de tudo para manter a pose de um status quo que já não possui ou acha que possuiu.  Observem as cenas do Grêmio onde os jovens da trama discutem feminismo, literatura, racismo, artes, inclusive com a presença de Pixinguinha e Gilka Machado. Há também muitas cenas de rua e ambientes sociais variados, bares, cafés, cinemas, confeitarias e o simbólico cabaré enfatizando bem o frêmito do período, como numa crônica de João do Rio ou Bilac.

Sobre o eixo central paira o tema dos temas de todos os folhetins: O drama amoroso de Maria Vitória e Inácio e suas agruras para conseguir viver esse sentimento de além e aquém-mar. Até uma fadista temos (Quem diria que Magda poderia!) para alimentar mais a coita de amor. Como soe acontecer há os vilões dispostos a separar o casal. Dessa vez duas vilãs com V maiúsculo. Desse lado do oceano, Lucinda, surpreendente Horta (virei fã depois de Elis), e toda sua carga de rancor e cicatrizes. Do lado de lá do Atlântico, Delfina, brilhante Sabatella, com seu desejo de reparação que lhe cega (ecos de juliana de O primo Basílio). O tema dos temas que atravessa os séculos está magistralmente representado na abertura com casais que atravessam a nossa cultura: Adão e Eva, Helena de Troia e Páris, Romeu e Juileta, Zumbi e Dandara e Lampião e Maria Bonita em quadros que vão se superpondo para retratar a ideia da força do amor dos protagonistas. Ao lado deles na trama, outros romances vão surgindo e também nos encantando, seja na burguesia ou no proletariado, ou melhor ainda quando se misturam como o médico e a doméstica. É mesmo uma novela de amor e como amor rima com humor, há cenas bem cômicas como a de Seu Geraldo e Dona Nicota na Festa dos Porcos...
A trama é bem construída e parece ter espaço para todas as personagens aparecerem um pouco e todas têm alguma complexidade. Desde o gigante Tony Ramos aos bem novatos como os jovens imigrantes. E por falar em personagens, fomos brindados com a aparição de Ester Delamare (Malu Mader), a baronesa de Sobral de Força de um desejo, uma das melhores novelas de época que já tivemos. Um show de intertextualidade, não só cruzando os enredos, mas também cruzando os tempos, pois uma das suas falas foi sobre o fato de que agora os títulos de nobreza não mais importavam.
Sempre é tempo para falar de amor, sempre é tempo para boas histórias sobre esse “Um não sei quê, que nasce não sei onde; Vem não sei como; e dói não sei porquê.” Continuemos...Afinal:

Balada do amor através das idades
 Eu te gosto, você me gosta 
desde tempos imemoriais. 
Eu era grego, você troiana, 
troiana mas não Helena. 
Saí do cavalo de pau 
para matar seu irmão. 
Matei, brigamos, morremos. 
Virei soldado romano, 
perseguidor de cristãos. 
Na porta da catacumba 
encontrei-te novamente. 
Mas quando vi você nua 
caída na areia do circo 
e o leão que vinha vindo, 
dei um pulo desesperado 
e o leão comeu nós dois.
Depois fui pirata mouro, 
flagelo da Tripolitânia. 
Toquei fogo na fragata 
onde você se escondia 
da fúria de meu bergantim. 
Mas quando ia te pegar 
e te fazer minha escrava, 
você fez o sinal-da-cruz 
e rasgou o pito a punhal.. 
Me suicidei também.
Depois (tempos mais amenos) 
fui cortesão de Versailles, 
espirituoso e devasso. 
Você cismou de ser freira.. 
Pulei o muro do convento 
mas complicações políticas 
nos levaram à guilhotina.
Hoje sou moço moderno, 
remo, pulo, danço, boxo, 
tenho dinheiro no banco. 
Você é uma loura notável 
boxa, dança, pula, rema. 
Seu pai é que não faz gosto. 
Mas depois de mil peripécias, 
eu, herói da Paramount, 
te abraço, beijo e casamos.
Carlos Drummond de Andrade 


sábado, 6 de janeiro de 2018

Entre irmãs: Outras histórias cruzadas

Para meu tio Auri Cotias, que assistiu comigo atentamente ao último capítulo

A minissérie Entre irmãs exibida essa semana pela Rede Globo de Televisão nos encantou através de um tema que é universal, a relação entre irmãos. Baseada no livro “A Costureira e o Cangaceiro”, de Frances de Pontes Peebles, virou filme pelas mãos de Breno da Silveira e roteiro de Patrícia Andrade e agora esse filme foi exibido no formato que vimos na TV (assim como Malasartes) durante essa primeira semana do ano.

Bom começo para a teledramaturgia. O tema universal da relação entre irmãos é um mote que atravessa a nossa cultura, mas de forma geral é contado através da sombra rivalidade. Desde  Caim e Abel, Esau e Jacó, José do Egito, Pedro e Paulo e Yaqub e Omar (protagonistas de Dois irmãos, de Miltom Hatoum que também foi transformada em série pelas brilhantes mãos de Maria Camargo) vemos irmãos brigando nas páginas e nas telas. Já nessa história, o que se sobressaiu é justamente o contrário, o amor fraterno incondicional entre as protagonistas, Luzia e Emília, defendidas muito bem por Nanda Costa e Marjorie Estiano (como essa atriz cresceu desde Malhação até aqui). 


Além da trama muito bem construída, ou melhor dizendo costurada, devemos destacar as atuações (Cyria Coentro é uma verdadeira estrela, a cena de seu delírio e morte na rede foi comovente), os figurinos, a fotografia, a abertura, a direção de arte minuciosa. Sobre o tema, ponto para ideia dos destinos cruzados e inseparáveis das irmãs narrado como uma questão aberta pela tia Sofia, a sábia que as criou. A que acreditava no amor, não foi amada como idealizou. A que foi levada quase à força encontrou o verdadeiro amor nos braços do mítico Carcará, mistura de Lampião com todos  os outros reis do cangaço (o episódio do sal  saiu de Lampião). Cidade e Sertão, Recife e Caatinga, Luxo e Fome, Macacos e Jagunços, Ciência e Fé atravessaram os pespontos desse tecido tão bem cozido. Vale ressaltar também, o papel narrativo dos jornais da época, uma espécie de voz paralela que ia nos contando dos acontecimentos com suas manchetes sensacionalistas e fotografias fortes.

A obra dialoga profundamente com nossos romances regionalistas (realistas/naturalistas) do século XIX e com o romance de 30, com destaque para O Quinze de Rachel de Queiroz. A cena em que Emília recebe o sobrinho Expedito dos braços de Luzia é muito semelhante a que Conceição toma Duquinha, até mesmo o espaço dos retirantes (muito semelhante aos campos de refugiados de hoje) no meio da nada e da fome e as mães com os peitos vazios pela seca que assola corpos e almas.

Outro ponto chave da narrativa foi a tal Frenologia ( de phrenos= mente e logos= estudo), ciência que acreditava que o formato da cabeça determinava o caráter da pessoas e a sua capacidade mental, daí tantas cabeças cortadas para estudo na época (Ver  Cesare Lombroso, pai da criminologia moderna,  tem tudo a ver com isso!). O sogro de Emilia, defensor fiel dessa crença, protagonizou algumas cenas com sua fita métrica que achava poder explicar tudo. Ledo engano, todos ao seu redor (inclusive seu filho para seu desespero, a homossexualidade considerada doença  a ser tratatada no sanatório) traíram sua teoria. Emília, que também usava a fita métrica como instrumento de trabalho, revelou em sua tocante carta de despedida (cena final da série), que em matéria de gente as medidas são bem outras, intangíveis, incomensuráveis e imponderáveis, numa bela analogia entre a costura e a ciência.


Excelente texto, rico em signos e simbologias (o baile de carnaval e suas máscaras que o digam), com forte pesquisa histórica e política, diálogos impecáveis a exemplo do rompimento de Felipe com Degas (“Minha vida andou para frente e nossa história ficou para trás”), enredo bem cingido que nos concedeu fortes emoções como a viuvez simultânea das irmãs. Como as Moiras ou Fiandeiras (mito greco/romano) de Malasartes ou sem elas, parecem que alguns destinos estão mesmo cruzados e entrelaçados por fios tênues, ninguém é irmão de sangue ou da vida por acaso...Continuemos, I'm fine...