quarta-feira, 29 de julho de 2015

Avenida Brasil, paixão nacional

A novela Avenida Brasil estabeleceu um novo marco na teledramaturgia brasileira. O seu êxito é indiscutível, haja vista tamanha comoção em torno do seu final que, literalmente, parou outra avenida, a Paulista (como na Copa do Mundo) e um sem número de outras avenidas pelo Brasil afora. João Emanuel Carneiro, certamente, foi alçado ao time da primeira divisão dos autores da Globo: Gilberto Braga, Manuel Carlos e Aguinaldo Silva.
O tema da vingança/justiça vem animando a literatura desde seus primórdios e restabelecer a ordem é a matriz de boa parte das narrativas escritas até então. O autor trabalha com um grande tema central e todas as outras histórias se cruzam com o eixo principal, fórmula já apontada em A Favorita. Talentoso e criativo soube beber sem moderação nas fontes literárias, inclusive com citações explícitas, como a lista de livros selecionadas por Nina para tentar abrir os olhos turvos de Tufão: O Primo Basílio e Madame Bovary.
Como bom técnico, soube explorar o time principal sem abrir mão de escalar o secundário. A tríade Adauto/Zezé/Janaína roubaram mesmo várias cenas. Os dois primeiros com um destacado humor e falas hilárias e a terceira com sua comovente missão de salvar o filho das trevas e com sua dose de marxismo às avessas, reproduzindo com sua empregada os desaforos recebidos na mansão. Como também soube abusar da versatilidade dos atores experientes, caso do inesquecível Leleco (Marcos Caruso) que ia da caricatura do velho-garotão ao pai-conselheiro em segundos e a dupla face de Santiago(Juca de Oliveira), um Gepeto, aparentemente adorável, que forjou o seu Pinóquio/Carminha assim como os brinquedos que consertava, meigos por fora e recheados de contrabandos, já que o lixo (ão) deve ficar sempre longe das vistas.

Quanto ao tão esperado final, gol de placa. A redenção de Carminha fugiu do clichê loucura/morte dos vilões e trouxe uma visão fraterna e generosa das fraquezas humanas. A remissão dos pecados é possível, mesmo sem perder sua essência, pois mesmo nos minutos finais ela ainda espicaçou seus comensais. Aliás, a cena da mesa, ceia de comunhão, reavivou os papéis familiares. Carminha teve nova chance de ser filha, mãe e avó, sem tintura nos cabelos, nem fantasia de falsa beata.  E nos 45 do segundo tempo, um jogo divino, reunindo todos os personagens, metáfora magistral da agregação brasileira em torno de suas paixões: Novela, Futebol e Cerveja, outra personagem marcante nessa história...

Fim de Império:O reinado do Comendador...

A consagração de uma personagem de novela pode ser medida quando ocorre com ele um processo metonímico, isto é, ele suplanta o título da trama. Nós não assistíamos à Avenida Brasil ou à Amor à vida, e sim à Carminha ou ao Félix. Tal processo repetiu-se agora com Império, foi e sempre será a novela do Comendador. Esse anti-herói por excelência, cheio de falhas morais, mas dotado de carisma inquestionável ganhou a simpatia dos brasileiros. Como em outras tramas anteriores de sucesso semelhante, fica para a reta final um enigma: Quem é Fabrício Melgaço? Talvez a pergunta correta fosse: Quem são Fabrício Melgaço? Já que se tratou de uma conspiração formada por uma espécie de triunvirato disposto a destronar o rei. O primogênito é sempre o herdeiro preferencial na linha de sucessão do trono, sentindo-se ameaçado em seu direito nato, alimenta o ódio mortal contra o pai, somando-se a isso seu caráter pusilânime, foi facilmente cooptado por Silviano e Maurilio, outro herdeiro revoltado sem trono para herdar. Dentro dessa disputa sucessória, o telespectador curioso teve um ganho cultural, termos incomuns no cotidiano, como regicídio, parricídio, suplício de Tântalo (alusão mitológica) surgiram na última semana para ilustrar a densidade do conflito familiar. É incomum os protagonistas morrerem no final, mas havia indícios de que isso aconteceria, o principal foi a quebra do diamante cor de rosa, o amuleto do rei garantia sua vitalidade e poder, uma vez quebrado tudo em sua volta se desagregou, por isso a pedra voltou para cena final com close em suas partes divididas.

A telenovela há muito deixou de ser apenas um veiculo de entretenimento, entorpecimento ou alienação como alguns preferem, ela também permite reflexões e revisões de padrões, sem perder o prazer delicioso da ficção. O casamento a três de Xana/Nana/Antônio, prefiro chamar de família a quatro, já que o elo era em torno da criança órfã, nos obriga a pensar em outros modelos familiares que podem compor um lar, tema também explorado vastamente pelo clã Bolgari que quebrou muitos tabus e terminou em harmonia total, enlarguecendo ao máximo o que parcamente entendemos como amor. Aliás, amor foi o motivo da redenção moral de vários personagens, dentre eles Magnólia, Robertão, Tuane, Orville e a fantástica Lorraine, que entrou na trama quase invisível e sai como uma gigante.

O recurso intertextual, ou a presença da citação, foi outro ponto muito bem costurado pelo autor, que, aliás, marcou presença no capítulo final, justamente diante de seu espelho quebrado, Teodoro Pereira. Mencionei anteriormente ecos shakespearianos, agora nesse final tivemos no casamento das irmãs a marca bíblica do casamento de Jacó/Raquel/Lia, cantado por Camões num dos seus mais belos sonetos. A música foi condutora de outras homenagens, mais intratextuais que intertextuais, já que a citação vinha de obras do próprio autor ou de outras novelas. Dona de Roupa Nova, trilha sonora de Roque Santeiro, coroou a Rainha Marta (sempre torci por ela, uma deusa nos diálogos e uma titã nos monólogos), a cena do comendador nadando em dinheiro foi ilustrada com a música de Pedra sobre Pedra, cujo título e tema dispensam explicações. No desfecho, a morte do Homem de Preto com Cartola ao fundo (presente também em Cidade de Deus), é uma menção à Pecado Capital, outra trama na qual o protagonista também morreu no final, num ambiente semelhante a uma fábrica abandonada. E há Pecado Capital maior que matar o pai? Embora não esteja entre os pecados que ameaçam a salvação, contraria um dos dez mandamentos! O pai fraquejou em matar o filho, mas o filho foi até o fim e terá que conviver com seu remorso, como sentenciou sua meia-irmã Cristina, e com a ascensão do irmão caçula, o herdeiro mais improvável. O final foi cíclico, voltamos para o começo com um novo rei. E para ficar por aqui creio que continuaremos por muito tempo com o espectro do Comendador...Personagem “Fela “da Puta! E que venha Babilônia...dou um fio do meu bigode que vem aí mais um campeão de audiência...

Império...nem os diamantes são eternos...

A novela Império, de Agnaldo Silva, começou em fogo brando, mas vem ganhando lume novo a cada episódio. O folhetim, como indicado no título, circula em torno da metáfora da monarquia, representada pelo núcleo central da trama: a família do imperador José Alfredo. Há diversos elementos que remetem à realeza: herança, sucessão, amantes, bastardia, títulos, casamentos por conveniência e demais Ligações Perigosas nos bastidores da corte e em torno dela. Cheia de ecos de Rei Lear e Macbeth e demais meandros da cupidez humana.

Boa parte da eficiência da trama está na força do protagonista. Ambíguo como todo bom herói moderno, O Comendador, O homem de preto (reis sempre têm epítetos)vivido por Alexandre Nero, certamente , entrará para a galeria de protagonistas marcantes da nossa teledramaturgia, tais como Felipe Barreto( O Dono do Mundo), Juvenal Antena(Duas Caras), Giovanni Improtta (Senhora do Destino), Antenor Cavalcanti ( Paraíso Tropical), adoráveis canalhas, politicamente incorretos, anti-heróis por excelência que caem no gosto do público e no imaginário do brasileiro.

Dentre tantos temas apresentados na trama, destacam-se alguns, dentre eles a oposição entre ricos de berço e os novos ricos e os labirintos da sexualidade. O casal protagonista explora a questão da tradição, Maria Marta (a brilhante Lilia Cabral), que, embora falida, emprestou seu nome ao marido, milionário emergente, mas sem a classe cruelmente exigida pela alta sociedade. Aliança feita e ambos se beneficiaram dos dotes um do outro até o acordo se quebrar e virarem “inimigos cordiais”.

Essa oposição é também estendida a outras personagens de forma mais pícara, a exemplo do casal Severo e Magnólia (nomes motivadamente irônicos, ele não é nada severo e ela não é flor que se cheire, pais cafetões que se salvam aos olhos do expectador pela saída do humor) que abusam do dito mau gosto da classe emergente, amplamente representado na preparação de suas bodas de prata em contraste  com o refinamento dos cerimonialistas Claudio e Beatriz. A máxima que o dinheiro no Brasil mudou de mão já foi repetida algumas vezes na novela, e até Joãozinho Trinta foi estrategicamente citado na sua famosa frase: “Quem gosta de pobreza é intelectual, pobre gosta é de luxo”. Carnavalização, inversão da ordem, reflexos de um novo país, simbolicamente retratados na tela.

E por falar em Claudio e Beatriz, chegamos aos labirintos da sexualidade. José Maier, galã por excelência do horário nobre, empresta sua alma ao angustiado bissexual de meia idade carregado de conflitos existenciais, mas complexa mesmo é Beatriz. Beira ao inverossímil a sua compreensão generosa das relações extraconjugais do marido ( sempre me pergunto se fosse uma amante e não um amante qual seria sua reação), mas a  arte é para quebrar regras e causar estranhamento mesmo (épater le bourgeois) e ela segue altiva, bela e amada. A reação de seu filho Enrico, é legítima a princípio, mas me parece prolongada demais, desproporcional demais para um pai tão bom, o que fez com que o papel do chef perdesse a mão e o interesse.

Xana Summer (Ailton Graça) é apaixonante, aquelas personagens que se tornam maiores que o seu papel e viram sol, iluminando todo o pequeno núcleo do seu lar e do seu abraço acolhedor (Lorraine é impagável) e, para explorar mais os labirintos do tema, a trama acena com  o possível relacionamento para além da fraternidade com Naná(Viviane Araújo) em nome de um amor maior pelo menino órfão. Já Téo Pereira (Paulo Betti), agora Teodoro, é caricatura pura, mas toda caricatura tem o pé no real, é metonímia de uma imprensa marrom demolidora de reputações e criadora de celebridades, meio por demais conhecido pelo seu criador que também alimenta um blog ácido no mundo real, uma espécie de auto-homenagem crítica de Agnaldo Silva. Em resumo, as personagens envolvidas na temática homo afetiva são prismáticas, vistas sob vários ângulos, trazendo calor para a discussão pelas salas do Brasil à fora e  à dentro, mostrando que teimamos em por em linha reta o que é linha curva.

Há tantas outras personagens e histórias que merecem nota. Silviano (grande Othon Bastos), impecável mordomo inglês, num lar onde o lordship gosta de tomar café em copos de requeijão, certamente deve ter um porquê ainda a ser apresentado, caso contrário seria um desperdício de talento. A substituição de Cora em pleno ápice, excelente no papel de corvo-vampiro, por razões de saúde, risco de toda obra aberta, teve sua verossimilhança ameaçada, mas rapidamente devolvida, afinal aceitamos o pacto do fingimento.

A loucura genial de Salvador (Paulo Vilhena encontrou seu papel).O mundo do camelódromo, com sua força de comércio popular. A escola de samba e seu entorno. Os bastidores da alta gastronomia e do design de joias. Fragmentos de um mesmo Brasil, mosaico cultural e social tão bem retratados na novela brasileira. Brasil, mostra a tua cara e para isso vale tudo nessa Avenida.
 

Enfim, o Império está sob ameaça de ruína, mas a narrativa está salva. Já que nem os diamantes são eternos, acompanhar boas histórias nos torna mais humanos... E, se não eternos, ao menos, mais ternos.

Lado a Lado: Matrizes do Brasil contemporâneo

A novela Lado a Lado escrita pelos novos autores, João Ximenes Braga e Claudia Lage, cumpriu com maestria sua função artística de entretimento e informação simultaneamente. Com enredo desenvolvido no início do século vinte, trouxe à discussão todas as questões pulsantes daquela época e que ainda ecoam com força cem anos depois.

Ancorada em sólida pesquisa histórica, o texto reviveu páginas marcantes de nossa História, percorrendo grandes fatos como a chegada da República, as reformas urbanas de Pereira Passos (o bota-abaixo), a Revolta da vacina e a Revolta da chibata e, sobretudo, mostrando como esses eventos repercutiam no cotidiano da sociedade da época.

Construída através de personagens extremamente simbólicos, trabalhando o binômio expresso no título, buscou sempre trazer à tona esses múltiplos lados que compõem o Brasil. Do lado da Rua do Ouvidor, a Baronesa da Boa Vista, que ironicamente recusava-se a enxergar as transformações pelas quais o país passava e sempre vociferava as máximas identitárias de nossa elite: “Sabe com quem está falando” e “Ponha-se no seu lugar”, Laura feminista-vanguardista lutava para ter vez e voz num mundo patriarcal, Bonifácio Vieira, protótipo dos nossos políticos corruptos que cobram suas vantagens em qualquer regime que vigore. Do lado da favela que começava a se formar, Berenice, ambiciosa a qualquer que fosse o preço, Isabel, lutando por sua felicidade e enfrentando todos os preconceitos, Caniço, o marginal ingênuo e manipulável. Observemos que tais personagens perverte a ideia de maniqueísmo, pois o bem e mal estão no humano e não nas classes sociais.

Sem abandonar os expedientes caros de todo bom folhetim, como os amores românticos, as cartas roubadas, a bastardia, a falsa beata, a solteirona encalhada, a redenção dos humilhados, as traições pérfidas, os segredos de família, os autores conseguiram ir muito além ao retratar um período histórico que é germe do nosso Brasil de hoje, nos fazendo pensar com bastante lucidez em temas como a intolerância religiosa (o casamento ecumênico foi emocionante), o papel decisivo da cultura africana, o sistema de cotas (a criação da escola no morro foi brilhantemente defendida na novela, inclusive com a chegada dos alunos adultos ex-escravos), o lugar da imprensa na formação da opinião pública, a relevância do futebol,  nossa tendência para a comédia no teatro entre outros aspectos.

Toda a novela é digna de elogios, os cenários, os figurinos, as cenas de rua com todos aquele burburinho de cidade moderna que surgia, a interpretação magistral dos atores(a Baronesa, insuportavelmente boa sem eu papel de vilã e Zé Navalha, magnífico em seus conflitos de herói frágil), parece ter saído de uma mistura das páginas de Machado de Assis, Lima Barreto e João do Rio, cronistas por excelência desse Brasil revelado na trama das seis.


E por fim é claro, um clássico final feliz para o regozijo dos telespectadores, os maus punidos e os bons em uma celebração vivificante e solar, pois ao menos na ficção, temos justiça nesse país.

Meu pedacinho de chão e sonho

Meu pedacinho de chão passa a ser um marco na teledramaturgia brasileira. Ultrapassando a sua barreira de remake, Benedito Ruy Barbosa impõe seu talento de dramaturgo. Construída a partir de linguagem e cenário teatral, tem a capacidade de nos transportar no fim das tardes para um mundo mágico onde tudo é possível, exatamente naquele horário no qual já estamos saturados da realidade do dia.

 Luiz Fernando Carvalho impõe sua assinatura de diretor com letras maiúsculas, antes já desenhada em obras como Hoje é dia de Maria e Capitu. Marcada pela presença das cores e da força do universo onírico, nos colocamos diante de personagens que nos põem em suspensão temporária da descrença como queria Coleridge e embarcamos no mundo do faz de conta, fazendo de conta e aceitando todas aquelas fantasias como possíveis, pois aquele universo é fixado através do olhar das crianças, narradores privilegiados que vão costurando a trama, com destaque especial para Menino Serelepe, amálgama de tantos outros ecos ficcionais (Pequeno Príncipe/Peter Pan/João Grilo/Pedro Malasartes e cia).

Através de personagens tipos que vão se adensando ao longo a trama, temos todo o microcosmo da sociedade de qualquer tempo e espaço (O CORONEL/O PADRE/O ARTISTA/O COMERCIANTE/O POLÍTICO/O IDEALISTA/A PROFESSORA/O MÉDICO), mas com uma forte sugestão de elementos da cultura brasileira como a excelente rezadeira/parteira Mãe Benta ou os simbólicos “agregados quebra-faca” como Rodapé e Zelão. Aliás, esse último roubando a cena na sua trajetória de anti-herói que vai se tornando herói através da redenção amorosa e do conhecimento.


Quanto ao cenário, figurino, maquiagem creio que não há o que comentar, a beleza é tanta que extasia. O texto é impecável, com tantas sutilezas e citações que nos eleva como leitores. Como toda boa obra literária, critica sem ser panfletária, chama a atenção para problemas reais através da alegoria e vai cumprindo seu papel de divertir e advertir. Por aqui fico porque já vai começar mais um capítulo, “trabaiei fiz mais do que pude, que nunca me farte...”

Sete Vidas ou a arte de contar boas histórias

A novela das seis geralmente é caracterizada por trazer à cena narrativas leves que vão preparando o telespectador gradativamente para os horários posteriores das  19, das 21 e, mais recentemente, das 23. A sequência seria mais ou menos assim 18/19/21/23, leveza/humor/peso/peso-pesado, gradação baseada na densidade das tramas e complexidade das personagens.

A atual trama das 18:00 da Rede Globo, Sete Vidas, de Lícia Manzo (já havia mostrado seu talento em A vida da gente) experimenta um doce sucesso, mesclando dosadamente essa gradação. A um só tempo ela retempera o quarteto leveza/humor/peso/peso-pesado, a partir de uma história muito bem construída através das Sete Vidas anunciadas no título. Essas Sete Vidas, na verdade oito contando com Júlia(Isabelle Drummond), jovens que têm por ligação serem filhos de um mesmo doador, funciona como um catalizador para as outras tramas paralelas que, de alguma forma, se interligam com essa árvore genealógica de vanguarda. Note-se que não se trata de um mesmo pai e sim de um mesmo material genético, o que já é por si inovador, pois o tema é muito novo e suscita muitas dúvidas quanto à legitimidade desses laços.

A novela tem sido uma grata surpresa ao trazer para nossa sala temas como psicanálise, crianças especiais, dislexia, novas composições familiares, ecologia, vocações e etc., sem ser panfletária ou moralizante. Mas, de fato, no que ela é melhor é no tratamento que dá as diversas relações humanas, explorando com muita delicadeza os meandros dos relacionamentos. Sejam eles fraternos, maternos, paternos, conjugais, profissionais e entre amigos, a vida vai seguindo através de diálogos impecáveis que nos prende no sofá por uma hora, torcendo para ouvir de novo a bela música e imagens da abertura assim que acabam os comerciais. Nessas relações há um destaque especial para os amores maduros, para as mulheres fortes ao lado de homens vacilantes e para os amigos à toda prova.

Outro aspecto que chama a atenção e traz frescor para a história é a ausência de vilões. Aqui não há o velho maniqueísmo que sustenta a literatura há milênios, o inimigo somos nós mesmos, nossos desejos e nossas escolhas. Não há um mal a combater e sim nossas fraquezas e angústias cotidianas na busca da felicidade. Some-se a isso a presença de grandes atores de diversas gerações e formações diversas (Regina Duarte, Domingos Montagner, Cyria Coentro, Débora Bloch e o jovem Guilherme Lobo, brilhando como Bernardo), trilha sonora refinada e uma pujança de referências culturais (ópera, literatura, pintura).


Eis uma belo mosaico do humano. Leve, sem deixar de tratar dos temas pesados da vida, bem-humorada, mesmo quando o assunto é peso-pesado. Assim como a vida, a dos outros e a da gente, sejam de sete pessoas ou de todos os seu múltiplos. E a fórmula é muito simples: Todo mundo gosta de ouvir boas histórias e, como o sultão de Sherazade, vamos  acompanhando e esquecendo dos nossos próprios enredos...É a magia da ficção que continua a nos encantar a despeito do peso-pesado da vida...

Vixe Maria, Deus e o Diabo na Bahia ou - Machado de Assis no tacho do dendê

Machado de Assis, escritor renomado pela qualidade literária dos seus romances, entre eles os inesquecíveis Memórias Póstumas de Brás Cubas ou Dom Casmurro, também se destacou na produção de contos imperdíveis que já se consagraram pela presença constante nas mais diversas antologias do gênero, textos como O Alienista, Missa do Galo ou A Cartomante povoam a memória dos leitores brasileiros que já se aventuraram por suas páginas.

Mas, a propósito da ocasião da visita em nossa cidade do espetáculo Vixe Maria Deus e o Diabo na Bahia, de Claudio Simões, nos remetemos de imediato a um conto não muito conhecido do nosso bruxo do Cosme Velho, mas sem dúvida um dos melhores, A Igreja do Diabo, que faz parte do volume de contos Histórias sem Data.

O argumento do espetáculo, espetáculo com todas as letras pela qualidade inegável da produção, é o mesmo do conto machadiano: Eis que cansado da monotonia do inferno, o Diabo resolve fundar sua própria igreja para competir com a igreja de Deus, e por ser um concorrente honesto, avisa ao Todo Poderoso do seu intento.

Daí em diante começa o processo de criação/reinvenção da peça baiana,  pois é justamente em Salvador que o Demo vem fundar sua Infernal Sé, obviamente no período que antecede o Carnaval e há uma festa todo dia na Bahia, ou seja, Salvador está do jeito que o Diabo gosta. E Deus, diante de tal ameaça, é obrigado a aterrissar por aqui também.

Conflito estabelecido, o tacho do dendê começa a ferver, numa deliciosa mariscada onde tem de tudo: Festa de Santa Bárbara/Iansã, procissão do Senhor do Bomfim com direito a citação do Senador como membro do cortejo, outro patrimônio cultural baiano, Festa de Iemanjá, Feira de São Joaquim, com todas as suas cores e sabores, do cesto de umbu a taboca, dos vendedores de ervas ao picolé Capelinha (nada foi esquecido!) nessa formidável mistura, temperada pelo legítimo baianês.

E por falar em baianês, na moral e sem exagero, meu rei, um dos pontos altos do espetáculo é justamente, a linguagem, a inserção da “língua baiana” com todo seu charme e gingado das ruas, é hilário ver Deus e Diabo falando baianês, é um tal de “Tome”, “Se lascou”, “Receba”, entre outras pérolas da língua gostosa do povo como dizia Manuel Bandeira.

Voltando ao conflito principal da trama, Deus e Diabo, na sua eterna peleja, visitam os supostos lugares onde estariam seus fiéis, entre eles um terreiro de candomblé e uma igreja evangélica, passagens que despertam risos soltos no expectador mais casmurro que por ali estivesse. O cotidiano das duas religiões é mostrado em forma de galhofa (para usar um termo machadiano), mas a profundidade da reflexão que dali podemos extrair é uma espetada nas mentes adormecidas. É o velho Ridendo Castigat Morus, por ali disfarçado de canga e protetor solar.

Outro elemento notável é a musicalidade do espetáculo, sem nem uma nota a mais ou  acorde a menos, a música baiana imprime um ritmo forte e sedutor durante as duas horas de palco, aliás, ornado por um belíssimo cenário e adequado figurino. Os hits dos carnavais baianos vão se enfileirando numa harmonia de arranjos de dar inveja a qualquer Escola de Samba do primeiro grupo.

Enfim o público de Feira de Santana que prestigiou em massa o evento, avis raras em nossa cidade, saiu com a alma lavada, gratificado por tão nobre diversão.

Ah!...Sobre o conflito eterno entre Deus e o Diabo, vai continuar ad infinitum, como forças que se retroalimentam. O bem só existe porque sua face oposta o completa e vice-versa e versa-vice. É o eterno dualismo humano, trabalhado na peça na perspectiva regional, que como nas grandes obras, leva ao universal.

Terminemos como o próprio Machado de Assis termina seu conto: Que queres tu? É a eterna contradição humana. De fato uma história sem data.

Ah! Que loucura essa mistura, Deus no coração e o Diabo no quadril.

Sete vidas: um lírico mosaico da alma humana

A novela que se findou essa semana suscitou em seus assíduos e apaixonados telespectadores contato com emoções diversas e questões sociais de várias escalas. Como numa paleta de um hábil pintor, a trama fez emergir um belo painel da nossa existência contemporânea, mas também eterna. A partir de um mote inovador, a paternidade de um doador, a trama foi se costurando e nos encantando dia após dia.

O tão esperado capítulo final ( gostaríamos que ainda não o fosse) foi fiel à trajetória de toda trama. Sem finais apoteóticos prezou pela sinceridade das emoções verdadeiras. Cenas no aeroporto, chegadas e partidas, simbolizando o fluxo da vida na qual nada está estático e tudo flui num eterno devir. Relações terminando, outras começando, famílias se formando, rótulos sendo revistos, com trilhas sonoras diversas que marcam o ritmo do coração, mas também com a dose de silêncio do cinema mudo, onde as palavras são impotentes e os gestos falam mais alto.Lígia, dividida ente o amor-brisa e o amor-vendaval, escolheu o segundo, mas certa de que o seu marujo agora já sabe atracar na segurança de um porto. Júlia, a restauradora, teve papel seminal na trama, colando os cacos para que o mosaico final ganhasse vida.

Outro aspecto que fez a narrativa ser tão especial e que percebêssemos a profundidade do texto através de muitas cenas de diálogo, foi o tempo para escutar. Quase todas as personagens tinha um amigo/confidente com quem podia partilhar suas angústias, tomando um café, uma taça de vinho ou de sorvete, algo tão raro em nossos tempos modernos. Daí surgiram os melhores momentos da novela, numa conversa sincera na qual nem sempre se ouvia o que se desejava.

Além disso, como já dissemos antes, o texto refinado era salpicado de citações de vários campos do conhecimento. Nesse último dia, Fernando Pessoa para coroar a navegação dessa família, tão única e tão múltipla a um só tempo, através do filho que se fez presente na ausência, aquele que recebeu do pai duas vidas e herdou seu destino errante.Final feliz e casamentos? Sim... Os dois. Não a felicidade definitiva do foram felizes para sempre, mas a provisória, feita de momentos únicos. Casamento, sim, à moda das sutilezas típicas da trama, os dois casais de branco singrando os mares com as promessas do sol por testemunha. Que venham novas histórias bem contadas como essa para saciar nossa fome inata de ficção, afinal Navegar é preciso e viver é impreciso!