sábado, 15 de abril de 2017

A força dos quereres


A nova novela da Rede Globo das 21:00h, A força do querer, da premiada Glória Perez, parece trazer nos seus primeiros capítulos um colorido novo para o horário. Contrastando com sua pálida antecessora que nos deixou com sede de boa ficção, salvo alguns capítulos e personagens aqui e ali isolados.

A autora sabe explorar muito bem os contrastes desse nosso país.  Belém e Rio de Janeiro, rural e urbano, Zona Sul e Zona Norte, o folclore de nossas lendas e o jogo do poder das grandes empresas, alta sociedade e trabalhadores comuns, madames e cabeleleiras, gente que vai a restaurantes refinados e outras tantas que se divertem  de pé em rodas de samba e na gafieira (sempre uma presença em suas tramas). Tais dicotomias nos remetem a um Brasil bem Barroco, talvez o melhor movimento artístico que nos represente, marcado por seus extremos antagônicos, uma das nossas marcas culturais e identitárias. Justamente como canta Caetano na sua bela Quereres, música escolhida sob medida para a abertura da novela, sua letra é toda construída por imagens antitéticas.

Paralelos aos quadros sociais opostos, temos dramas familiares e individuais que valem  nossa atenção. Um pai amoroso que vê seu filho cair no canto e encanto de uma ”sereia” exageradamente sensual  (Isís Valverde está se especializando nesse papel) e luta contra essa obsessão do filho. Uma mãe que projeta na filha seu ideal de mulher/diva/capa-de-revista e sofrem as duas por não encontrarem essa tal imagem no espelho. Uma dama da sociedade viciada em jogo que ameaça sua estabilidade familiar em nome da adrenalina das apostas. Um executivo que em nome da empresa familiar renunciou sua felicidade e agora tenta resgatar seus verdadeiros desejos. Empregadas que são  confidentes e esteios de suas patroas. Uma mãe de adolescente cosplay que não sabe mais quem é seu filho, dentre outros conflitos que já se anunciam nesse início da narrativa.

Mas parece que a grande questão da trama é aquela que vem estampada no título e cantada na abertura: A bruta flor do querer,  melhor fica entre suspiros  como nos versos da canção: Ah! Bruta Flor, bruta flor...Todos se debatem entre os  seus quereres...Entre o Princípio do Prazer(PP)e o Princípio da Realidade(PR), como bem cunhou nosso gênio Freud.

A passional Bibi (Juliana Paes muito bem em mais um tipo popular) largou um noivo morno que lhe acenava com um futuro promissor, para viver um amor arrebatador com um garçom que lhe cobre de mimos sob um regime de penúria, para desespero e incompreensão de sua mãe (Sogra com letra maiúscula, que parece gritar a todos os instantes que” amor não enche barriga”), escolheu o PP  e amarga uma realidade dura. A nossa sereia se vê dividida entre o querer dos braços seguros  de Zeca e a infinidade de seus sonhos, ilustrada pelo mundo novo que Rui pode oferecer, eles protagonizam a profecia do primeiro capítulo, o perigo que vem das águas.

 Aliás, pelo já visto, os triângulos  e a complexidade de nossas escolhas serão motes presentes em vários núcleos. Paolla de Oliveira, linda de morrer como a policial lutadora Jeiza O+, se debate entre seu sonho profissional arrojado e o equilíbrio da vida afetiva, assim como muitas outras personagens que se dividem entre os seus quereres e os quereres dos outros, entre o que queremos e o que esperam da gente.

Glória Perez é uma Sherazade competente no retrato de conflitos sociais, familiares e individuais seja nos Caminhos das Índias, no Marrocos ou nos salões e subúrbios cariocas,  com  muitas cores  que não sei o nome, talvez de Almodóvar ou de Frida Kahlo. Ela também foi pioneira em trazer o marketing social para dentro da ficção, quem não se lembra das mães da Cinelândia em Explode Coração (1995) que buscavam por seus filhos desaparecidos? Proporcionando à teledramaturgia uma papel inestimável! Qual será o tema dessa vez?

Salve, Glória! Continuaremos atentos aos seus fios coloridos e saias rodadas da ficção e enredados no seu doce canto, enquanto nos balançamos no sofá ao som do contagiante carimbó ...

 

PS. Recolhendo elementos para Novo Mundo!

11 comentários:

  1. Alana, você tece comentários cada dia mais dignos de ser lidos e relidos. Eu que não vejo novela fazer co até lastimável, por conta das suas falas.
    Um desafio, jå que o Brasil inteiro vê TV, porque não usar a força das suas relas e entrelelas para o, de vez em quando, estimular as pessoas a lerem bons livros que mais fam nas estantes?
    Você pode.
    Abraços,
    Cid Seixas,

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    1. Olá, caro Cid. Obrigada pela sua leitura. A ideia do blog foi justamente ler as telas através do olhar de uma leitora de livros, em busca de surplus que talvez quem não é leitor não veja. Acho que as novelas desempenham um papel relevante para um país como o nosso, o único contato com a ficção para milhões de pessoas. Continuo devota da literatura... Mas decidi declarar essa paixão pelas novelas e filmes através da percepção de uma leitora de livros. Continuemos!

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  2. Corrigindo digitação:
    Eu que não vejo novela fico até lastimando.

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Alana, ávido estava por este espaço digno de leituras e deleites... Glória é essencial no horário nobre, assim como és aqui. Saudades de Glória e de ti na nossa teledramaturgia. Um viva às duas. Salve Glorialana!

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    1. Salve, Gutho! Precisamos desses goles para matar essa sede de ficção! obrigada pela leitura sempre atenta!

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  6. Alana, confesso que ainda havia acompanhado essa trama com a d3vida atenção, mas depois desse texto brilhante já me sinto ansiosa para experimentar mais uma bela trama de Glória Perez. Parabéns pelo texto! Cada dia melhor !!

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    1. Obrigada pela leitura atenta. Sim, parece que estamos diante de uma boa novela! Continuemos!

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    1. Obrigada, continuemos atentos às cenas dos próximos capítulos!

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