sábado, 29 de julho de 2017

A força da narrativa de Glória Perez: Dois contos em uma semana catártica


A Força do Querer vem se destacando como uma grata surpresa no horário das 21:00h (ainda chamo novela das 8 pela força do hábito, mas no geral ela está indo ao ar um pouco depois das 9). Desenvolvida a partir de vários plots, motivos ou núcleos, parece ter sucesso em todos eles. Não se trata apenas de tramas secundárias para alimentar o eixo central, ela vem tecendo bem todos os personagens e seus dramas numa espécie de rede simultânea de histórias em paralelo. Há inovações muito bem-vindas para nós telespectadores como o resumo do capítulo anterior no início, os ecos das vozes e/ou congelamento do gancho para o dia seguinte no seu final de cada capítulo (recurso já bem usado em Avenida Brasil) e personagens reais adentrando na trama(Fafá de Belém fazendo um pouco dela mesma e Tê para ajudar Ivana a se encontrar).

Essa semana em especial duas cenas são dignas de destaque: A surra de Irene e O aniversário de Dedé. Ambas nos remetem à natureza narrativa do conto. Poderiam ser capítulos isolados contados individualmente, como aqueles Casos Especiais que a Globo apresentava na minha infância. As duas como soe acontecer nos contos tradicionais tiveram início, meio e fim, clímax e desfecho bem contornados.  Júlio Cortazar em Valise de Cronópio[i], no ensaio Alguns aspectos do conto, resume algumas das características principais do gênero. Vejamos:

1. Escolher um acontecimento real ou fictício que passa essa misteriosa propriedade de irradiar alguma coisa para além dele mesmo;

2. Ruptura do cotidiano;

 3. Um tremor de água dentro de um cristal, uma fugacidade numa permanência;

4. Fabulosa abertura do pequeno para o grande, do individual e do circunscrito para a essência mesma da condição humana;

5. Estilo baseado na intensidade e na tensão;

6. Escrever tensamente, mostrar intensamente.

Em A surra de Irene, tivemos a clássica história da amante pérfida que apanha da esposa traída. Mulher bate em mulher no banheiro feminino e tem apoio de outras mulheres. Ritinha deu o nocaute e Marilda fechou a porta para ninguém interromper. Em Celebridade Maria Clara esbofeteou com gosto a vilã Laura no banheiro também. Em Caminho das índias, Ivone, bem que podia ser a mãe de Irene, também levou sua surra no clube, já em Por amor Eduarda derrubou a rival na piscina com cadeira de roda e tudo. Li nas redes sociais algumas críticas à surra de Irene, como se a cena quebrasse a corrente da sororidade. Penso ao contrário Marilda e Ritinha (mesmo com sua moral questionável, pois também traiu) foram sisters de Joyce e saíram em defesa do clã, um movimento feminino também legítimo, o desejo atávico de manter a casa segura. Ao ver uma família ameaçada por uma golpista que abusou da confiança e fragilidade da “amiga”, as amigas caíram “pra dentro”, e o Brasil esperava com ansiedade essa cena, Joyce literalmente saiu do salto ( Christian Louboutin, não é qualquer salto!), catarse coletiva (por onde passei no dia seguinte ouvi muitos comentários).  Claro, Eugênio devia levar sua sova também, com boas raquetadas de preferência para pagar o que já nos deve há anos, mas  a arte não existe para corrigir a vida e vice-versa. Creio que os pontos 5 e 6 de Cortazar estão bem  aí representados.

O aniversário de Dedé pode ser comparado a um daqueles contos antológicos com um belo final feliz. Dedé como a maioria das crianças (meu filho de 8 anos mal acaba um aniversário e começa a planejar o próximo e chorou junto comigo nesse capítulo) desejou sua festinha e convidou seus amiguinhos. Cenário montado, mesa posta, decoração de futebol e seu time não veio. Ele era a própria imagem da desolação, nada que sua mãe ou avó (Elisângela solando no papel) fizessem podia curar sua tristeza. O telefonema do pai só piorou nossa piedade do lado de cá da tela. Quando tudo parecia caminhar para a tragédia da solidão e do preconceito, eis que irrompe na festa Goku! A fantasia salva a triste realidade, a ruptura do cotidiano mencionada pelo crítico argentino. O extraordinário dentro do ordinário, o tremor de água dentro do cristal, o pequeno para o grande. Eu diria para o enorme, para o inalcançável, para o infinito. Foi uma das cenas mais lindas que já vi até hoje. O efeito seria diferente se fosse Yuri a chegar de repente, pois Dedé mandou o convite através dele para Goku, que veio em seu socorro heroico. Os pontos 1, 2 ,3 e 4 exemplarmente mostrados.

Por essas e outras continuamos a amar a literatura. As novelas filhas legítimas e herdeiras incontestáveis dos folhetins continuam  nos surpreendendo e como nos bons contos imortalizados nas páginas dos livros nos trazem essa Felicidade Clandestina e nos fazem rir e chorar como A moça tecelã...

P.S Entretelas hoje faz 2 anos! Dia de celebrar! Estejam todos convidados e lembrem de assinar o livro de visitas deixando seus comentários!

 




[i] CORTÁZAR, Julio. Valise de Cronópio. Serie Debates. Nº. 104. 2ª edição. São Paulo: Ed. Perspectiva, 2004.
 




 

 
 
 
 

 

36 comentários:

  1. Seu texto segue, dando mais emoção às cenas já vividas. É ler o seu texto e correr para a tecnologia (rever capítulos é um bônus grandioso), a fim de ver a cena e ouvir as palavras na trama do texto alaniano.

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    1. Obrigada, meu nobre leitor e colaborador! Continuemos em diálogo na arte e na vida!

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  2. Parabéns, amiga! Sensibilidade e inteligência produzindo frutos de reflexão! Sou fã!

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    1. Fazer vc gostar de novela já é um grande presente do blog! Obrigada por ser essa fina leitora da arte e da vida!!!

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  3. Como sempre, uma crítica tão lúcida que nos dá um prazer enorme de ler!

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    1. Thank you, Lady Lina! My Dame! Obrigada pela gentileza de nos ler!

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  4. Alana,
    ao assistir esse capítulo, emocionei-me também. E pensei logo em você. Seu texto, agora, completa minha análise. Obrigada.

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    1. Obrigada, minha fiel leitora! Como não se emocionar com aquela cena! Continuemos a tecer!

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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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  6. Como sempre, texto perfeito! A cena do aniversário de Dedé foi uma das melhores coisas que já vi em novelas... Parabéns pelo dois anos do blog. Espero que a televisão continue produzindo boas novelas para você nos presentear com seus textos.

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    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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    2. Obrigada, cara Mila. Seu faro fino de jornalista vê de longe uma boa história! Continuemos!

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  7. Bravo!!!!! Texto Excelente! Crítica muito bem elaborada.Parabéns pelos 2 anos!!! Que venham muitos mais! A vida agradece a arte!

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    1. Obrigada! Sim, a vida sem a arte é muito sem cor!!!

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  8. Excelente texto, Alana!!! Não podemos esquecer do show que Lília Cabral dá com suas armações, já também comentado por ti. Vamos que vamos.... Aqui agradecemos seus posts.

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    1. Obrigada, Fabiana! Lilia é nossa Meryl Streep! Vamos que vamos em frente!

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  9. Como sempre, um texto sensível e coeso. A força do querer tem feito com que eu lamentasse não poder ver um capítulo ou outro. Obrigado por essas palavras... Esse texto tão rico! Fiquemos atentos ao banho de emoções que está por vir em A força do querer!

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    1. Continuemos com a nossa força do querer bem aos bons textos e interpretações! Obrigada!

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  10. Que sensibilidade, pró! A senhora sempre ampliando e nos apaixonando com sua escrita. Obrigado, obrigado!

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    1. Obrigada, obrigada! Para gostar é preciso ser sensível também! Continuemos!

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  11. As análises de Alana são de utilidade pública. As novelas cumprem um papel importantíssimo no Brasil, e merecem um olhar mais cuidadoso e generoso por parte da academia. Os textos do blog evidenciam uma fina leitora e telespectadora que, a partir de um repertório cultural e literário amplo, e sem perder a leveza ( a proposta de Calvino), iluminam aspectos do produto cultural que fala mais diretamente ao povo brasileiro, independente da classe social: a telenovela. Sou fã da proposta! Tem Literatura na novela!

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    1. Obrigada, pela sua leitura e contribuição. Essa ideia enraizada na academia é anacrônica, herança de Frankfurt, que nos deu muita coisa boa, mas não lê tudo que aconteceu de lá para cá! Sim tem literatura na novela, que também é literatura!

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  12. Alana querida eu não assisto novelas mas através dos seus olhos eu enxergo coisas maravilhosas . Acabei de ver a cena aqui na internet e realmente seu texto traduz tudo . Coisa linda de se ver .

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    1. Obrigada, minha médica com alma de artista!!! Vc é sensível também para as miudezas belas da vida!

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  13. Alana, parabéns pelo Entretelas e pelo texto, mais uma de suas valiosas análises! A cena de Goku foi realmente memorável.

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  14. Obrigada, linda Marcela. O aniversariante agradece ter uma leitora como vc! Goku foi um golpe de mestre, a fantasia vencendo!

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  15. Lindo, infelizmente não assisti à cena de Dedé, fiquei curiosa para para vê-la. Parabéns, pró!

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  16. Alana, parabéns pelo texto e pelos dois anos com o Entretelas!!! A cena de Dedé foi realmente muito emocionante, principalmente pela delicadeza de Yuri. Infelizmente os pais de Dedé não conseguiram se ver como responsáveis, pelo contrário continuam se sentindo injustiçados...

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    1. Obrigada pela leitura atenta! Sim, a cena foi inesquecível! As crianças são vítimas dos erros dos pais! Volte sempre, a casa é sua!

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  17. Alana, parabéns pelo texto e pelos dois anos com o Entretelas!!! A cena de Dedé foi realmente muito emocionante, principalmente pela delicadeza de Yuri. Infelizmente os pais de Dedé não conseguiram se ver como responsáveis, pelo contrário continuam se sentindo injustiçados...

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  18. ...observei atento que a chegada de Goku à festa de Dedé foi mais que um "vale-sóhojepode". Vi o reconhecimento de que os filhos não podem pagar pelos pecados dos pais: não é justo... não é digno. Penso que a cena da surra em Irene ampliou a ideia do "buliu com uma, buliu com todas." No mais, Glória é necessária depois das 21h, e você, Alana, necessária aqui conosco para, além de tudo, preencher nossas lacunas folhetinescas.

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  19. Amado amigo, e o que seria desse nosso filhote sem pessoas sensíveis como vc? Obrigada pela parceria e por abraçar essa nossa proposta de leitura com tanto carinho!

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  20. Antes de ver o bendito capítulo da surra, também já havia lido algumas postagens meio raivosas sobre ¨a Globo mais uma vez prestando um desserviço/incentivando a violência entre as mulheres, etc... o bla bla bla da praga do politicamente correto sem fundamento. Até parece que as moçoilas são sempre amiguinhas, principalmente quando se tem homem pelo meio – hipocrisia, a gente se vê por aí -. Como a ficção nunca teve o papel de educar ou ajuizar alguém, essas cenas de tapa na cara são sempre muito boas e as atrizes fizeram justiça a polêmica que causaram. O capítulo do garoto também foi um grande acerto.
    Entretelas de parabéns por dar toques tão claros sobre teoria literária até para quem é simples espectador. Vida longa a esse ótimo serviço. Livro de visitas assinado com prazer.

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  21. Obrigada,Chef Júlio. O Sr. tem sido um grande leitor dessas nossas reflexões. E ao se assumir como noveleiro, também presta um grande serviço às questões de gênero para ser politicamente correta.Continuemos em diálogo, agradeço sempre a sua amada por ter sido essa ponte entre vc. e nosso blog. Que tal um blo sem lactose com recheio de goiabada para comemorar? RSSSS

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  22. Sim, noveleiro desde 1978. Agradecido pela promoção a Chef. O recheio do bolo é garantido, mas a falta da lactose será tentativa. rsrs

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  23. Fico feliz em ver como você fala da novela das nove com leveza e seriedade. Diferentemente dos comentários superficiais das revistas e jornais que tratam do tema.
    Você leva para o leitor do seu bom blog uma conversa inteligente como a propria blogueira.
    Parabéns pela permanência da página.

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