quinta-feira, 10 de maio de 2018

O outro lado do paraíso, algumas considerações antes do fim



Essa semana estamos acompanhando o final de O outro lado do Paraíso de Walcyr Carrasco. Não creio que seja uma novela que entrará para a lista das favoritas do país marcando seu imaginário, não a considero uma grande novela como um todo, mas digamos que seja uma boa novela, que cumpre seu duplo papel de entretenimento e discussão de temas polêmicos, com grandes pequenos momentos. Walcyr já nos deu belos banquetes dramatúrgicos  como em O Cravo e A rosa ou Amor à vida, já faz parte do panteão dos melhores autores e segue firme a nos contar boas histórias.

Dentre esses grandes pequenos momentos destaquemos como ponta de lança a atuação marcante dos atores da terceira e já quarta idade. Fernanda Montenegro que estamos acostumados a ver, em sua maioria, em papeis de mulheres sofisticadas e urbanas, encarnou sua Dona Mercedes com uma maestria que nos faz lembrar uma sacerdotisa ou sibila mítica. Sua sábia rezadeira nos deu lances emocionantes durante a trama, que vão do enfrentamento e vitória sobre a morte duas vezes (uma no começo da trama outro agora no final quando botou Zé Vitor para correr e fez seu “mal” escorrer pelas veias) a momentos de grande graça quando, como uma mocinha romântica, amarelou diante do altar onde seu noivo Josafá a esperava. E que parceria desses dois! Lembrando O amor nos tempos do cólera (ela mesma atuou na adaptação do romance de Gabo para o cinema) ou O Casarão, esses especiais amantes, mais de alma que de corpo, esperaram décadas para enfim viverem seu amor/cumplicidade/amizade especial. Ele, aquele homem cheio de dignidade e valores morais, se rende à sua amada que não consegue controlar de jeito nenhum, respeitando, mesmo cheio de medos, sua missão guiada por  “Eles”.


 E Dona Caetana, a decana do time, nossa Laura Cardoso, brilhando como a experiente cafetina entre os paetês, neons e segredos da Love Chic, acho que será um dos seus grandes momentos na TV pela desenvoltura e humor que deu o tom à grande Dama da Noite. Uma espécie de Fada Madrinha controversa para as primas do Bordel que vivem seus sonhos de Gata Borralheira, mostrando que nem sempre  "fazer a vida" é uma escolha. Mas Ana Lúcia Torre, também roubou os holofotes como Dona Adneia, no seu microcosmo familiar, dentro do seu AP de onde saiu poucas vezes, refletiu tão bem as agruras de uma mãe entre o modelo ideal de família que ela acreditava ser o melhor para seu filho até aceitar a família  que o faria feliz de fato. Dentro do seu AP tivemos as cenas mais engraçadas da novela, capitaneadas por ela e na sua crença na cura gay. Sua cena essa semana de aceitação do amor entre Samuca e Cido foi muito emocionante, após muito relutar (a apneia não colou) ela os abraça formando a família possível, amor de mãe em estado bruto. E seu monólogo posterior foi golpe de mestre do autor, ela sozinha rearrumando o novo lar, ajeitando as almofadas, recolhendo os farelos do bolo e se reinventando para aceitar que a felicidade do seu Tigrão  é com Cido (Zulu também surpreendeu) e chegando a constatação óbvia que não há cura porque não há doença. Sua voz foi uma espécie de voz da consciência social para a aceitação e conciliação.


Voltando ao núcleo central da novela, a vingança de Clara, ela enfim chega ao final da novela concluindo seu plano, só falta Sofia. Já um pouco vingada pela vida e tendo que ser cuidada por Stela, a filha que sempre rejeitou. Na cadeira de rodas ela ficou da mesma altura da “aberração” e teve que olhá-la de frente. O papel de Stela também é digno de nota, suas aulas de alfabetização para adultos iluminaram sua atuação. Durante sua recuperação tem que conviver com o que sempre quis esconder, houve alguma comoção na cena em que sua filha massageava seu rosto, mas ela é má por excelência e não há redenção para a vilã serial killer. Diferentemente de Gael que vem conseguindo a regeneração porque era dual. Depois de marido agressor punido pela Lei Maria da Penha, volta a ocupar os pensamentos da mocinha nada romântica. Como bom folhetim, ficou para o final a famosa pergunta Com quem ela vai ficar? Acreditamos que com Patrick, aquele amor cavalheiresco que mudou toda a sua vida para servir Sua Senhora, mesmo sem muitas garantias do final feliz.


Vale ainda lembrar que um dos temas mais fortes da novela foi a questão materna, como já disse em texto anterior. Foram muitos os modelos de relações de mães e filhos explorados na novela. Do abuso sexual pelo padrasto, da Grande Mãe do Quilombo, da mãe Naja que quer manipular a vida dos filhos e se redime pelo amor ao neto, da mãe que rejeita, da mãe-coragem que doa um rim, da madrasta que renega a enteada, da mãe adotiva Lívia que na hora do sequestro, dor extrema,  une-se a Clara e chamam Tomaz de nosso filho, aceitando que ele tem duas mães.


A novela em alguns momentos se perdeu um pouco se arrastando no meio do caminho, mas do meio para o fim recuperou o fôlego e nos fez ficar com vontade de assistir no dia seguinte. Aliás, ela passou a adotar o modelo do resumo do capítulo anterior e chama para o novo dia no inicio de cada episódio, ops, capítulo, imprimindo o ritmo de série à trama, pois essa filha do folhetim, que já foi radionovela, fotonovela, vai se transformando com os anos e se adaptando aos novos tempos onde enfrenta a concorrência de tantas outras telas, mas continua a nos convidar a sentar e assistir, torcendo pela justiça no final, onde o Bem sobrepuja o Mal, pois tudo que você faz um dia volta pra você, ao menos na ficção a Lei do Retorno é certa, com raras exceções...



2 comentários:

  1. Alana, de todas as novelas que tive o prazer de assistir, essa foi, sem dúvida alguma, a que mais me educou. Sim, nunca tinha refletido tanto a partir de um folhetim. Carrasco me acertou em cheio com os poucos núcleos que existiram na trama. Alguns, especialmente, os da Casa de Caetana, A Casa de Mercedes e A Casa de Adneia. Lugares cheios de ontens foucaultianos e de hojes empoderados a cuidar de prover um amanhã digno, mais uma vez, do Maná e, como bem disse Mercedes, sem guerra, sem sangue, sem tantas dores. Acredito que foi uma homenagem aos divinos Lima, Fernanda e Laura já tão mais naturalmente próximos "Do outro lado do Paraíso. Sentirei falta de ligar a televisão para rever a releitura do classico de Dumas. O fim de uma novela acompanhada é sempre como a perda... a morte de algo. Mas, como sabiamente disse o poeta: " a morte promete jardins.

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  2. Gutho, seu belo comentário me encanta, parceiro de ficção e de vida, continuemos sempre bebendo dessa fonte fresca, mesmo que sejam vinhos novos em odres velhos...

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