sexta-feira, 17 de agosto de 2018

O tempo não para e o mundo é um museu de grandes novidades



A nova trama das 19:00h, O tempo não para, de autoria de Mario Teixeira, vem se revelando como uma bela novidade para esse horário que geralmente é reservado para comédias e experimentações diversas. O autor tem vasta experiência como colaborador em novelas como A padroeira, O cravo e a rosa, Passione e I Love you Paraisopólis, de programas infantis como Castelo Rá-ti-bum e O sítio do pica-pau amarelo, agora inaugura sua carreira solo  e a vem fazendo com grande competência, haja vista o sucesso dos primeiros capítulos.
Uma família de grande influência e posses na São Paulo do século XIX é congelada durante um naufrágio em 1886, juntamente com seus escravos e seu cachorrinho de estimação. Misteriosamente sobrevivem e despertam desse sono congelante intactos em 2018. O mote que aparentemente é inocente e já explorado no cinema, temos filmes famosos como O de volta para o futuro  ou as menos conhecidas comédias De volta para o Presente e Kate & Leopold com temáticas semelhantes, tem sido conduzido com muita destreza e diálogos milimetricamente elaborados que nos têm rendido boas risadas com as confluências e divergências desses dois brasis de ontem  e de hoje.
Uma das graças principais da trama é o que podemos aproximar da comédia de erros proporcionada pelos diálogos extremamente ricos sobre as diferenças desses mais de cem anos. As expressões linguísticas de ontem e hoje sempre estão gerando situações de ambiguidade que provocam o humor. E uma das funções do humor, presente na máxima de Plauto, Ridendo Castigat Mores, é ser usado como crítica social, papel que a novela tem desempenhado muito bem.
O texto está sendo construído como uma espécie de palimpsesto, o Brasil de hoje está sendo escrito sobre o Brasil de ontem e as camadas dos tempos passados sobrevivem com suas marcas e se confundem com o presente. Já aconteceram cenas excelentes que brincam com essa superposição de tempos e permanência de problemas sociais, como os diálogos entre Dom Sabino e Eliseu sobre impostos e política ou o tratamento dado ao tema da escravidão e seus ecos no presente.
Outra estratégia que chama a atenção é a formação de pares de posições semelhantes de ontem e hoje. Dom Sabino emparelha-se com Eliseu, assim como Marocas com Paulina. Chefes de família de ontem e hoje, moças fortes de ontem e hoje que ocupam classes sociais diferentes de ontem e hoje. As diferenças são muitas, mas as semelhanças no aspecto humano também são muitas, o que dá profundidade ao tom cômico gerado pela descoberta das novidades da contemporaneidade pelos congelados.
A presença insólita dos congelados provoca interesses diversos que vão do amor à cobiça, da amizade ao desejo de conhecimento que gera a glória. O mundo não é mesmo um museu de grandes novidades? Se a trama conseguir continuar seguindo o ritmo desses primeiros dias, parece-me que essa novela será supimpa, deleitosa, aprazível, esplendorosa, garbosa e com Ivete cantando Raul na abertura já é um convite a sentar na namoradeira, na voltaire, no divã ou no sofá diariamente....


19 comentários:

  1. Estou adorando essa novela, realmente o autor está de parabéns pela inovação do tema, por fazer uma viagem pela história, mostrando a evolução da língua e dos costumes, essa novela promete.

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    1. Também estou adorando a trama, leve e profunda...E o trabalho com alinguagem está sensacional.

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  2. Realmente, "o mundo é um Museu de grandes novidades" e o autor está de parabéns e os atores então. Desejo sucessos👏👏👏👏

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    1. Sim...Como Salomão já dizia não há nada de novo sob o sol...

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  3. Um balcão de possibilidades. Estou gostando dessa obra. Aguardando os negros de ontem no hoje. Você foi cirúrgica, Alana! Parabéns pela análise.

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    1. Também aguardando essa discussão que certamente virá...Obrigada pelo cirúrgica...Tento encontrar o corte certo, nem sempre consigo...

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  4. Pró, parabéns pela lente crítica e sensível com que lês esta e outras tramas. Melhor que isso, parabéns por nós conduzir tão bem a esta leitura! Este blog nos faz ter orgulho de assistir às novelas! Deixou de ser coisa de desocupados para ser tema de pesquisadores do teu nível!!

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    1. Desocupados univo-nos! Obrigada pela sua leitura atenta...A novela é um produto cultural importante na nossa cultura, não podemos desprezar.

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  5. Mas essa menina tem um olho! E um ouvido! Como sempre, análise bem feita...Beijos, amiga.

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    1. Obrigada, minha fiel seguidora na vida e na arte.

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  6. 👨🏾‍💻 Como dizia Maria Altiva Pedreira de Mendonça e Albuquerque, very good essa sua observação. Como sempre me deixa mais feliz em ver uma Professora Universitária com um olhar tão lindo, técnico e coerente, sobre esta arte tão BRASILEIRA.
    Parabéns.

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    1. Obrigada, meu bom Vivaldo, navegador também dessas águas!

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  7. Os diálogos entre Dom Sabino e o nobre Eliseu provocam suspiros e reflexões. Estou encantada com a novela e já estava ansiosa por uma análise sua. Texto perfeito, como sempre.

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    1. Minha boa Mila, tem sido o ponto mais alto da trama.

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  8. O ator do personagem Samuca me parece num tom a menos que o restante do elenco, inclusive no conflito direto com a Marocas. Não convence como um jovem empresário. Espero que encontre o tom.

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    1. Concordo, colega. O ator ainda é verde e Marocas é um furacão em cena, a diferença fica evidente.

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  9. Quando as chamadas da novela começaram, achei a ideia bacana, mas muito arriscada, já que as últimas apostas para o horário não foram lá muito felizes. Eu particularmente gosto demais dessas tramas cheias de choques culturais e, influenciada por sua análise, vou começar a acompanhar. Beleza de texto, querida.
    P.S. Há outro filme delicioso que trabalha com esse tema: "Kate & Leopold".

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    1. Também não achei que me atrairia, mas está sendo uma grata surpresa. Bem lembrado, adicionarei Kate & Leopold ao texto, vc é um poço de referências.

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  10. Quando as chamadas da novela começaram, achei a ideia bacana, mas muito arriscada, já que as últimas apostas para o horário não foram lá muito felizes. Eu particularmente gosto demais dessas tramas cheias de choques culturais e, influenciada por sua análise, vou começar a acompanhar. Beleza de texto, querida.
    P.S. Há outro filme delicioso que trabalha com esse tema: "Kate & Leopold".

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