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quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Amor e sorte, primeiro episódio: Outro “doce” de mãe!

 

                                                                         Para minha amiga Zélia Martins

 

Umas das palavras de ordem, já gastas pelos seis meses de uso que vem perdurando a pandemia, e que nos condenou, dentre outros sofrimentos, ao isolamento social, é o verbo Reiventar.  Mudanças de hábitos, de regime de trabalho, de consumo, de lazer e de formas de se produzir novos produtos culturais enquanto vemos gráficos e reportagens que nos deixam tensos todos os dias e noites. Assim, a teledramaturgia, pão poético diário da maioria dos brasileiros, também precisou pensar em outras formas para continuar levando os fios da ficção para nossas casas.  

Juntando todos esses elementos, uma forma de contornar essa sombra foi a genial ideia de Jorge Furtado de fazer uma série sobre confinados reais e seus sabores e dissabores, com tramas muito semelhantes ao que muita gente está experimentando. Famílias reais de atores fizeram de suas casas palco para essa novidade deliciosa que nos traz um sopro de alegria, mostrando que a arte é uma danada e que dá seu jeito sempre que possível.

Assim, fomos presenteados ontem, com um episódio belíssimo que retrata as agruras da convivência forçada entre mãe e filha, com naturezas e pontos de vista completamente diferentes sobre a vida, “esquerda carnívora” e “liberalzinha vegetariana”, segundo elas mesmas em meio a uma discussão acalorada sobre matar um frango e demitir funcionários. Briga que nos rendeu uma das aventuras mais cômicas do episódio, a captura da penosa que não se entregou facilmente ao abate, teimosa assim como as duas protagonistas.

É sabido que todas as famílias têm conflitos, mas espera-se de uma mãe de 90 anos e uma única filha de meia idade, executiva bem sucedida, uma relação pacífica ou ao menos cordial, ledo engano. Gilda e Lúcia são boas representantes da bipolarização do nosso país que ficou nas entrelinhas desse programa de estreia. Como também da condição dos nossos aposentados que não podem pagar um plano de saúde e outras despesas e precisam que sua renda seja completada pelos filhos. Questões nem sempre simples ou que também resultam em papéis invertidos, quando a aposentadoria dos velhos é a fonte de sustento. No plano da frente, uma deliciosa comédia familiar, no plano do fundo, um painel do país.

Um dos topos mais presentes na Literatura Ocidental, para utilizar a terminologia de Ernest Curtius no seu clássico Literatura europeia e idade média latina, é o da velhice tranquila e sábia, tema já presente em Sêneca e Cicero, sábios da antiguidade. Dona Gilda contraria toda essa representação. Ativa, impulsiva, hedonista, ranzinza, boemia, dentre outras qualidades ou defeitos a depender da medida, deu muito trabalho para sua filha Lúcia, disciplinada, focada, responsável, séria, saudável (com a ajuda de um ansioliticozinho, é claro), também qualidades ou defeitos a depender da medida. E a convivência das duas isoladas em um sítio onde, de fato, Fernandona e Fernandinha, cada vez mais parecida com a mãe, estavam ilhadas com a família, não foi nada fácil.

Mas, de volta à convivência, vem de volta o amor que as unia, as lembranças, as fotos, os risos, as estrelas, a boa mesa com o frango assado e uma boa taça de vinho (pode ser em copo de requeijão também, o que vale mesmo é a companhia), elementos que aproximam quem se quer bem e aparam arestas das diferenças. E elas já não queriam que aqueles dias acabassem, era preciso prolongar o prazer e a presença de ambas. Gilda toma suas providências cortando, literalmente, a conexão com  o mundo lá fora, outra cena incrível e muito simbólica. E como uma boa obra de arte pode ser vivificante como aquela taça de vinho, ela nos brindou com a esperança da notícia que todos esperam em todos os lares, a vacina chegará, e a receberemos de braços e abraços abertos, mas sem esquecer daqueles que se foram, porque assim é a vida, agridoce como as relações humanas em qualquer tempo... Que venham os casais nessa nova Comédia da Vida Privada... Amor é Sorte!

21 comentários:

  1. Maravilhoso!!! Sempre surpreendendo!!!Adorei o termo: " ... a telematurgia,pão poético diário..."

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  2. Que lindeza de texto! Tão acalorado quanto aquela bem dita taça de vinho...

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  3. Muito bom! Gostei demais desse drama poético cheio de certo bucolismo, mas cheio de lições. É depois desta análise primorosa é esperar os próximos capítulos e se deliciar com teledramaturgia e entretelas!!

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  4. Muito bom! Gostei demais desse drama poético cheio de certo bucolismo, mas cheio de lições. É depois desta análise primorosa é esperar os próximos capítulos e se deliciar com teledramaturgia e entretelas!!

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  5. Seu texto sempre impecável, Alana.
    Confesso que esperei mais deste primeiro capítulo da série. Esperava mais profundidade, não sei bem. Neste sentido, gostei muito do Diário de um confinado. Bjos

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    1. Obrigada, fico feliz com sua leitura! Também gostei muito de Diário e ri horrores, mas esse episódio das duas me tocou bastante

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  6. Excelente texto!! E parabéns pelo tiro certo na escolha da destinatária: Zélia!!

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  7. Excelente texto!! E parabéns pelo tiro certo na escolha da destinatária: Zélia!!

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  8. Excelente!!! Um texto leve e rico, como foi o episódio. Assisti emocionada relacionando as agruras que podem ser as mesmas vividas em nossos lares.

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  9. Análise refinada. É a realidade com um toque de ficção. Isso mesmo que quis dizer.

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    1. Obrigada, Luís! Um prazer receber sua visita por aqui...Volte sempre!

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