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sábado, 18 de março de 2023

Mar do Sertão, um final da mulesta!



 

Findou-se ontem a magistral trama Mar do Sertão, da autoria de Mário Teixeira e direção luxuosa de Allan Fiterman. Pense numa novela que só nos deu alegrias, uma sucessão de acertos e se falhas houve não fez coro no conjunto exitoso da obra. Terminou, mas seguirá conosco como todas as boas histórias.

O microcosmo da pequena cidade fictícia do Nordeste como metonímia do Brasil é um topos que já deu muito certo antes em Sucupira, Saramandaia, Santana do Agreste, Asa Branca, Tubiancanga, Serro Azul e outras coordenadas imaginárias e que agora se repete em Canta Pedra. Nessa pequena aldeia temos um mundo (Salve, Tolstoi) com todos os seu vícios e virtudes e a crença esperançosa de que as pessoas, quando querem, podem melhorar, sobretudo, pela via dos afetos.

Como bom folhetim, temos no centro da narrativa uma disputa amorosa entre dois irmãos e a protagonista Candoca, médica destemida, mocinha ressignificada na coragem e trabalho, mas o amor romântico não foi exatamente o ápice da trama, embora costurasse muitas pontas dessa bonita colcha de retalhos, fuxicos e lives. A amizade, o amor ágape, foi quem deu a letra nesse outro cordel encantado. Além da amizade das três Marias (as Pestes, porque amigo de verdade se xinga sem problema), o afeto dos amigos brilhou na telinha.

Seja entre Zé Paulino e o Príncipe e os outros “pares da França” (Advogado, Dentista, Gerente, Leiteiro e cia ), seja entre Xaviera e boa parte do núcleo (Nossa Amélie sertaneja), com destaque para as crianças, seja entre Catão, Ismênia com o Coronel redimido, ou na força da relação entre o Padre e a Pastora. E o que falar da lealdade de Timbó, na pobreza e na riqueza, uma belezura de personagem esse nosso bom malandro picaresco em oposição ao mundo dos corruptos caricaturais do poder (Prefeito, Agiota, Delegado) que certamente entra na galeria dos inesquecíveis. Daqueles que passam a fazer parte do nome da novela, A novela de Odete Roitman, a novela de Carminha, a novela de Félix, a novela de Bibi, a novela de Timbó!

Vale notar que esse fenômeno é mais comum nas tramas das 21:00 que sempre têm maior audiência e alcance, mas o danado do Timbozinho, a quem Enrique Diaz deu a alma e junto com sua Tereza, Clarissa Pinheiro maravilhosa, que trocou de vestido, simples como ela, mas não de alma e deram um outro destino aos nossos Fabianos e Sinhas Vitórias, inclusive porque aprenderam a ler e passaram  ajudar seus camaradas! Para simbolizar a força da amizade, as rosas de Nossa Senhora para Xaviera só podiam ser amarelas!

Sobre o capítulo final, o triunfo da justiça deu o tom do bem vencendo o mal, mesmo que essa sombra cabruquenta sempre ali esteja nos ameaçando como foi mencionando no belo texto de Zé Paulino na inauguração do açude. Água em lugar de petróleo, porque Timbó é sustentoso! Não haveria final melhor para Deodora que seu veneno (Bruxa) matar a única pessoa que importava para ela, o manipulável Tertulinho, a quem em nós despertava mais piedade que raiva,  e amargar sua pena com seu remorso do que poderia ser diferente.

E Xaviera prefeita com seu vestido vermelho subindo a rampa com o povo depois de ter sua “ficha limpa” não é mera coincidência, aquela piscadela do autor para os expectadores atentos. A vitória da mulher, dos jovens, da imprensa livre, de novas faces no poder tudo junto e misturado. Ao cortar a fita da inauguração do açude batizou uma nova era em Canta Pedra e no banho coletivo uma cena de congraçamento com a vitória do amor e da amizade, com todos os mitos da primavera presentes nos abraços, beijos, crianças e bebês a caminho. Teve muito “Quero te pegar bebê” com muitos casais se formando no final, nota especial para Cidão e Casimiro, Mirinho e Cyra, Coronel e Pastora porque no folhetim romântico o amor redime e transforma vícios em virtudes!

E a cena final com a dupla Juzé e Lukete liderando o Bando Anunciador que não mais chamaria as cenas dos próximos capítulos, mas o final de Mar do Sertão e a chegada de Amor Perfeito, foi de "torar" como dizemos por aqui. E o elenco se misturando com toda equipe ( A gente não vê, é quem faz a magia acontecer) cantando e dançando em total comunhão, com aquela algazarra desorganizada das festas de rua foi da mulesta mesmo! Porque cantar parece com não morrer é igual a não se esquecer que a vida é que tem razão...Queria saber fazer um cordel, um xote, um xaxado, um forró para manifestar minha admiração por essa narrativa, mas vai em prosa mesmo! E que venha Amor Perfeito que bebe na fonte de Marcelino Pão e Vinho porque sem as fontes nada criamos, seja nas cacimbas do sertão ou nos vinhos da Espanha.

 

 

terça-feira, 10 de janeiro de 2023

Mar do sertão, um mar de histórias


 

A novela das 18:00, agora das 18:30, tem sido um refresco geladinho ou um cafezinho com bolo para nós amantes da teledramaturgia. Aquele momento especial em que nos deliciamos e nos envolvemos com a leveza, humor e sensibilidade de uma novela, trio que o Brasil precisa. Da autoria de Mário Teixeira, a trama é um deleite e tem se encaminhado para o fim sem perder seu charme já visto em outras histórias desse horário, pois não há como não notar seu parentesco com Cordel encantado, Êta mundo bom ou Flor do Caribe dentre outras.

Aliás, um dos seus pontos fortes é a riqueza intertextual. O texto bebe em muitas fontes orais, nas cacimbas de Ariano Suasuna, que por sua vez bebeu em Gil Vicente e por aí vai nesse mar de histórias que se cruzam e se bifurcam. É perceptível em primeiro plano o modelo do auto medieval com seus personagens tipos circulando numa praça: O padre, o coronel, o agiota (onzeneiro), a mocinha, o político, o delegado, o parvo esperto, o aventureiro, o príncipe, o comerciante e muito mais. Com o acréscimo moderno de que o autor aprofunda esses tipos e cria outros dando mais camadas para todos eles. Sempre seguindo o mote latino do ridendo castigat mores. Todavia, todos estão nas barcas do céu e do inferno simultaneamente.

Destaca-se na trama, entre tantos poços de petróleo, a força dos afetos dos simples em oposição às tramoias dos poderosos. A amizade entre as três meninas guerreiras lideradas pela heroína doutorinha Candoca que a todos socorre no corpo, na alma e na ética ou na leal relação de José Paulino com Timbó passando pelo Príncipe. Timbó merece todos os nossos elogios, uma personagem que rouba as cenas e circula em todos os núcleos.

Timbó é o nosso já conhecido pícaro, aparentemente parvo, mas esperto que só ele, já tão bem desenhado no Malazartes, Macunaíma ou na dupla Chicó e João Grilo e agora por Enrique Diaz que o faz brilhar em cada olhar, palavra ou silêncio. A sua cena consolando o amigo sob o céu estrelado e apontando os pranteados pais no firmamento foi de uma beleza ímpar.

Vale registro também Xavieira e sua doce complexidade, quer até ser malandra, mas tem um coração que não a permite ultrapassar a fronteira e acaba encontrando suas reais companhias nas crianças, outro núcleo delicioso que espelham seus pais. E sua antípoda talvez seja Teodora, mal sem medidas.

A novela é rica em muitos e muitos aspectos, observem, que apesar de ser uma novela interiorana e rural, que temos muitas cenas em ambientes fechados grutas, casas, pensão, sacristias, gabinetes, consultórios, choupanas, celas, mostrando um universo íntimo das personagens em suas relações e todos esses espaços guardam segredos.

Voltando às cacimbas em que bebem essa trama que também é das mil e uma noites, agora no final vamos de Caim e Abel e possivelmente de tragédia grega. Além de irmãos rivais, tudo leva a crer que há algo mais ali que beira os filhos de Édipo, uma troca de bebês está sugerida no segredo de confissão, até Ismênia pode ser testemunha.

Agora o que é bom, bom mesmo como a rusga cordial do padre com a pastora, as angústias de Pajeú ou as tretas de Cira nesse Mar de Histórias, é que a gente ri muito, muito mesmo, porque o texto é de prima e os atores mais ainda! E por falar em prima, as cenas dos próximos capítulos são a cereja do bolo, a manteiga derretendo no cuscuz, a canela por cima do mingau de tapioca, o coco da canjica porque o sertão é um baú de receitas sem fim! Êta mulesta, Êta mulesta...


sábado, 8 de outubro de 2022

Pantanal, um final grandioso

 

Por quase sete meses o Brasil parou para ver Pantanal, comoções assim em torno de uma trama das 21:00h (21:30/21:50) eu só me recordo de Roque Santeiro, Vale Tudo e Avenida Brasil, minha mãe me conta sobre Irmãos Coragem, que ouvia pessoas na rua gritando e chorando “mataram João Coragem” na era dos televizinhos. O nosso país, tão dividido, se uniu em muitas noites e em outros turnos para ver uma mulher virar onça, um velho virar sucuri, um peão endemoninhado e uma muda que falava, mas, bem mais que as tintas da fantasia e alegorias, os telespectadores de diversas telas pararam para ver e rever, pois trata-se de um remake, um pedaço do chão pouco conhecido ou retratado nas narrativas.

Conheço pessoas que não viam mais novelas há muito tempo e retomaram o hábito, jovens experimentando o gênero pela primeira vez, muitas assinaturas de Globoplay para quem não pode acompanhar no horário e, nós noveleiros inveterados, encantados a cada capítulo com algumas restrições como o figurino de Guta, a cena da violência contra Alcides e o excesso de publicidade. O sucesso em várias faixas etárias, camadas sociais e regiões diversas mostram o vigor das novelas em plena era das multitelas. Aliás, a chamada segunda tela ou também a social tv reinou absoluta durante a sua exibição, uma enxurrada de memes, bordões, opiniões, matérias diversas em vários programas e conversas paralelas em grupos de mensagens mostram que nós ainda amamos a telinha e o pó de plim plim da Globo.

A trama de Bruno Luperi, neto de Benedito Ruy Barbosa, foi fiel o que quanto possível três décadas depois da versão de 90 na Rede Manchete, num dos raros momentos em que uma emissora bateu na Vênus Platinada, mas não era coerente manter algumas questões com o tratamento do passado. Então fomos brindados com momentos didáticos sobre sustentabilidade, feminismo, homofobia e outras tantas pautas em meio a uma leva de cenas de rara beleza marcada por uma fotografia deslumbrante, texto rico, atuações fortes e personagens que extrapolam o limite dos meus adjetivos, como o mítico Vei do Rio, encarnado por Osmar Prado, uma inspiração clara das veredas rosianas.

 

E enfim chegamos ao grande final (ara, larga mão que eu não vou falar Grand finale, embora a ocasião mereça pompa e circunstância). São tantos os elementos a destacar no capítulo de ontem que terei que me limitar a alguns. Comecemos pela força da cena entre Tadeu e seu avô Joventino que ele tanto desejava e precisava ver para se sentir também um Leôncio, a força do afeto em detrimento do sangue (o neto do amor) rendeu um momento de muita emoção, e na cena posterior dele com o pai, as falas, os abraços e os silêncios tocaram fundo na gente.

Os casamentos e as crianças coroaram os mitos da primavera, da continuação festiva da vida, do riso e da prosperidade. Durante a festa, numa bela cena sinfônica, vários acontecimentos simultâneos foram traçando os finais, tais como a libertação das bruacas que tomaram as rédeas da sua vida e se tornaram amigas (Tô certa ou tô errada?), a dança de Alcides com Zaqueu (a amizade é o tipo mais fino de amor) quebrando as bancas de muitos preconceitos, assim como o surgimento de um par para o Peão Frosô que buscou seu espaço à unha naquele meio tão hostil para as diferenças.

Obviamente, a morte do protagonista e seu sonhado encontro com o pai foi forjada pelo primor estético e simbólico. A troca de lugar para que o Véi pudesse descansar e se integrar de vez à natureza marcou uma cena grandiosa calcada na força de muitos mitos. A voz de Benedito Ruy Barbosa no final também traz a ideia de passar o bastão para o neto e seus bisnetos na trama costuram a ideia do correr da vida e do ciclo natural que age independentemente da nossa vontade.  

E por falar em mitos, o corpo de Zé Leôncio sendo conduzido no barco revisita com força a face de Caronte. E Filó Senhora do Pantanal, com seus cabelos encanecidos assumiu seu posto de Rainha que exercia com tanta sutileza ao longo da história. E como dezembro vai e janeiro vem, aqui ficamos já saudosos dos rios que cortam o coração do Brasil e esperançosos porque outras Travessias nos aguardam, mas esse berrante fará falta...

quarta-feira, 31 de agosto de 2022

Pantanal perfumoso: Uma aprendizagem dos afetos

 


 

                                                                          “ A Abelha fazendo o mel, vale o tempo que não voou” Beto Guedes

 

Nas últimas semanas, a novela Pantanal tem acertadamente investido em cenas de aprendizagem. Em diversos momentos, o texto aborda, através de uma gramática afetiva, temas que aquecem discussões no Brasil em um momento no qual pautas violentas emergem de forma brutal.

Muito antes das lições de aprendizagem mútua entre Zaqueu e Alcides, nas quais um ensina ao outro sobre as lidas de cada um, a novela já investia nas longas conversas entre Dona Mariana e Zé Leôncio, também representantes de mundos diferentes. O primeiro quer aprender a ser peão, o outro está disposto a entender as questões homoafetivas e de gênero, com a sinuosidade de suas siglas tão distantes do mundo de Arcides. Se a relação dos rapazes evoluirá para algo mais como tem sido sugerido ainda não sabemos, mas que a parceria deles tem roubado a cena é fato, mostrando a beleza da amizade.

Também através de um repertório afetivo, Joventino alfabetizou sua Juma, que agora já lê poesia de Manoel de Barros e clássicos da literatura como O Velho e o Mar de Hemingway, obras que tão bem se encaixam na luta do homem com a natureza, um dos temas centrais da novela. Juma, excelente aluna, já ultrapassou a fase de Alfabetização (decodificação) e já sorve as delícias do Letramento Literário (Será que Cosson gosta dessa novela?) ao alcançar os vários sentidos do texto, inclusive contagiando outras leitoras. Zefa e Muda,  ouviram empolgadas sua recontagem da luta do Velho com o Mar na captura do peixão a ponto de acharem que ela se referia ao Velho do Rio. Já não mais aluna, Juma agora também ensina e já podemos considerá-la como uma Agente de Letramento.

Cenas de aprendizagem se multiplicam na tela, o apoio incondicional à Maria Bruaca na casa de Zé Leôncio, um lugar sempre solar e acolhedor, onde se tem mesa farta e cantoria, em contrapartida à penumbra e escassez de luz na casa de Tenório onde todas as refeições são marcadas por desentendimentos (Pobre Zuleika, que escolha miserável!). Maria recebe todo tipo de apoio, inclusive o jurídico, que a faz ter seus direitos antes sempre sonegados. Lentamente ela vai se tornando uma cidadã, cada vez mais Maria e menos Bruaca. Irma, que representa uma classe de mulheres aristocratas e herdeiras, sem vida própria,  contribui com o que tem, ensinando Juma e Zefa a ficarem também perfumosas como ela com sua rotina de beleza e uma gaveta cheia de cosméticos (Haja publicidade, Ara, larga mão!). Zé Luca de Nada, que por ter uma boa índole só absorveu do mundo da política a parte boa, a vontade de mudar o mundo para melhor, desenvolvendo um discurso próprio baseado em suas experiências.

Há muitos outros pontos altos na novela como já dissemos anteriormente, a fotografia, as atuações impecáveis, as questões ambientais, a trilha sonora, a chance de todas as personagens crescerem sob à luz em algum momento (virtudes de um elenco relativamente pequeno e com poucos núcleos) e assim esse remake vai ganhando espaço entre as melhores novelas dos últimos tempos ganhando os rios que correm coração do Brasil e fazendo o que a arte tem de melhor: deleitar e ensinar...

 

terça-feira, 24 de maio de 2022

Pantanal: A força da ficção no coração do Brasil

 


                                                                                              Para Michel, meu amor[i]

 

Devo começar dizendo que vi a primeira versão de Pantanal em 1990 e que me lembro de muitas coisas daquela época longínqua, mas devo dizer mais, estou vendo verdadeiramente agora a força dessa história e o caudaloso rio e todos os afluentes que a compõem e devo dizer mais ainda: Ela está conquistando novamente um público cativo e sedento por boas novelas e novos telespectadores que já tinham abandonado a telinha e outros tantos jovens que estão saboreando esse biscoito fino pela primeira vez.

A força da trama reside, sobretudo, no choque de dois mundos. Um marcado pela natureza, o outro pela cultura. Um marcado pelo Pantanal, ambientes abertos e sua exuberância. O outro pelo Rio de Janeiro, seus espaços fechados e sua endogenia. Num vigora um certo código de ética. Noutro, as relações são vazias. E esses dois mundos se encontram e se chocam através do malfadado casamento de Zé Leôncio e Madeleine e no fruto cruzado dessa relação difícil: José Joventino, Jove, símbolo da intersecção desses dois mundos. Filho sempre deslocado onde quer que esteja, aqui ou lá, lá ou aqui. No Rio ele não é o mauricinho esperado, no Pantanal ele não é o peão desejado. Observem o guarda-roupa dele com suas camisetas panfletárias (Maio de 68, universo Rock and Roll e outras mensagens) e gastas, sua voz vacilante e seu olhar perdido magistralmente vivido pelo Jesuíta Barbosa.

Vale lembrar que Jove, apelido herdado como diminutivo do nome do avô, é um dos nomes de Júpiter, o correspondente romano de Zeus, Deus pai para os gregos, e que a trama também circula em torno da figura paterna, sempre problemática e em busca de um ideal. Tadeu, o bastardo, sofre com sua condição de filho reserva, José Lucas de Nada e sua procura, Guta que repele a figura do pai ruim, Muda que quer vingar a morte do dela, e no centro de tudo José Joventino, José Leôncio e Jove, o trio que costura a narrativa.

 E o universo mítico não para por aí, vejamos o reflexo de Caronte em Eugênio, Almir Sater virtuoso,  que protagonizou uma bela cena de viola também de pai para filho, um rito de passagem mágico ou tantas lendas ribeirinhas dos encantados que tanto nos encanta. Observe que é uma novela lenta com cenas longas e muitas paisagens, narrada em um tempo mais contemplativo que da ação propriamente. E vamos seguindo seu fluxo. Os espaços são relevantes na condução da história. As cenas da família do Rio, sempre são antecedidas pela imagem da casa que se apresenta em franca decadência assim como aquele clã que só se relaciona entre si e lutam para manter o nome que já nada diz, tudo muito outonal. No Pantanal, as frentes da casa sempre aparecem também, mas de forma solar, com promessas de primavera.

O Pai Maior, assim chamemos José Joventino, abandona a cultura e se integra na natureza, dando vida à fantástica personagem do Velho do Rio, uma figura incontornável, enigmática, que encarna o arquétipo do Mentor, não há adjetivos para Irandhir e  Osmar Prado em suas atuações. Quando o Véi entra em cena, nós aqui do outro lado da tela, também o reverenciamos e recebemos seus conselhos. Os ecos do conto A terceira margem do rio de Guimarães Rosa são evidentes, aliás, quem foi mais gênio que ele em pintar o metafísico no coração do Brasil. Seu herdeiro José Leôncio, Marcos Palmeira nosso matuto dos bons, se embrutece, mas não muito, a fim de fazer fortuna e deixar para seu sucessor aquele império de terras e gado, mas Jove não quer nada disso, e nem sabe o que quer de verdade e por isso  é questionado, reeducado e meditativo todo o tempo. Três homens do mesmo sangue muito próximos e muito distantes.

E nesse conflito nasce o amor pujante de Jove e Juma Marruá (linda e talentosa Alanis), a “menina só natureza” que desconhece os meandros da cultura e age por instinto (na infância ela e a mãe se cheiravam como os bichos fazem), e os dois vão dando aula um para o outro sobre o seu mundo e construindo um casal improvável na cultura e possível na natureza. Mais uma vez o amor se dá entre natureza e cultura, é sina do pai e do filho amar mulheres de mundos diferentes. As cenas da alfabetização de Juma por Jove são de rara beleza e pureza, assim como ela o ensinando a caçar, além das lições de aprendizagem amorosa que são tanto sensuais quanto ingênuas. Um amor e uma cabana é possível? Veremos sem pressa...

Outro aspecto de destaque nesse remake de Pantanal reescrito por Bruno Luperi, neto de Benedito Ruy Barbosa (Pai Maior) é a atualização de alguns discursos como as questões relacionadas à ecologia, ao agronegócio, ao feminismo e afins, mas sem pesar a mão porque se for didático demais cai na panfletagem e acho que o Brasil está gostando e precisando muito é de ver mulher virar onça, velho virar sucuri, casal se amando no rio e moda de viola ao luar. Vale lembrar que a novela presta homenagem ao seu criador em alguns momentos, as camisas de Tadeu trazem o nome Mezenga (Rei do gado) e a avó de José Lucas, é a cafetina Jacuntiga ( Renascer), além do elenco de atores que sempre trabalha em suas tramas que têm por mote o universo rural, o chamado Brasil Profundo.

Antes de acabar essa prosa, devo dizer que as tramas secundárias também nos enredam, quem não está torcendo pela virada de Maria Bruaca, ou para saber do desenredo de Muda, ou apaixonado pela bondade e sabedoria de Filó, sempre a sovar a massa da vida (Dira Diva) e tantos outros pormenores que tornam a obra grande como os rebanhos de Zé Leôncio...Ara...Já ia me esquecendo de um pormenor dos melhores, Renato Teixeira, dando vida ao personagem vivido por seu filho na primeira fase, cantando a amizade no momento de sua morte, bonito demais e a gente não se cansa de ouvir de novo e de novo, eu tenho um cavalo preto....E como a novela é linda, louvemos a amizade, esse sentimento mais lindo do  mundo...A ficção e os amigos têm me ajudado a sobreviver:

Amizade Sincera - Renato Teixeira

 

A amizade sincera

É um santo remédio, é um abrigo seguro

É natural da amizade

O abraço, o aperto de mão, o sorriso

Por isso, se for preciso

Conte comigo, amigo, disponha

Lembre-se sempre que, mesmo modesta

Minha casa será sempre sua

Amigo

Os verdadeiros amigos

Do peito, de fé, os melhores amigos

Não trazem dentro da boca

Palavras fingidas ou falsas histórias

Sabem entender o silêncio

E manter a presença mesmo quando ausentes

Por isso mesmo, apesar de tão raros

Não há nada melhor do que um grande

Amigo, amigo, amigo...

 

 



[i] Meu grande amado que se encantou há dois meses e, dentre tantos momentos especiais que dividimos, assitir ás novelas das 9 juntos era sagrado, em 1990 começamos a namorar e como Juma e Jove nos ensinamos muito mutuamente...

sábado, 23 de abril de 2022

Medida Provisória 1888/2022: Suspensão temporária da descrença

 

Na última quinta-feira, 21 de abril, dia simbólico na História do Brasil, após mais de dois anos sem ir ao cinema, me permiti o presente vivificante de assistir ao brilhante Medida Provisória. Cinema lotado aqui na minha Feira de Santana, repleta de jovens de todas as idades, inclusive meu filho, sobrinhas e muitos rostos conhecidos e comungantes daquele banquete. Por quase duas horas experimentamos a gloriosa “Suspensão temporária da descrença” cunhada por Coleridge sobre a magia da literatura.

A plateia estava atenta e sedenta por uma boa história e a encontrou. O que começa como uma aparente comédia de costumes evolui para um eletrizante thriller com notas de trama policial e de aventura, mas preservando aquele humor irônico que apreciamos e que desafia nossa reflexão para o ontem e o hoje e nos faz engasgar com a pipoca ou com o papel da Fruitella (feita para fruir a tela) no meu caso

O filme é uma adaptação do livro e peça de teatro do ator e dramaturgo baiano Aldri Anunciação, Namibia, Não (2012), rosto familiar para nós que prestigiamos a Rede Bahia e que agora será visto por milhares,  merecendo todos os prêmios. Com direção de Lázaro Ramos (também dirigiu a peça acerca de dez anos) e presença de grande elenco (e elenco grande, inclusive do próprio Aldri, como Ivan, personagem chave na trama) e equipe de mais de 800 pessoas com trabalho direto e indireto. A narrativa retrata uma distopia na qual, em pleno 2021 ou 2022, o governo brasileiro aprova uma medida provisória que decreta que todos os “melaninados” retornem para a África como uma espécie de política de reparação pelos 400 anos de escravidão.

A trama tem por protagonistas um trio, dois primos e a esposa de um deles, o jornalista André, o advogado Antônio e a médica Carolina/Capitu, vividos respectivamente por Seu Jorge, Alfred Enoch e Taís Araújo que emprestam seu corpos e almas aos papeis. Uma família negra que vive em um prédio de brancos, onde o único outro negro é o porteiro. Aqui, vale destacar que o termo protagonista é mesmo explorado com a força de sua etimologia, esses três serão aqueles que primeiro lutam e resistem, os dois desde o princípio e ela, na medida em que toma consciência de seu papel social sufocado sob o jaleco.

Destacamos que os nomes dos três aludem ao século XIX, os abolicionistas negros, o engenheiro André Rebouças, o advogado e poeta Luiz da Gama, ambos  jornalistas combativos, e nossas personagens ficcionais A Moreninha e a nossa cigana oblíqua e dissimulada (faz muito sentido na evolução da personagem, de romântica à realista). Ressalte-se que, em paralelo aos protagonistas, todo elenco brilha em cenas de qualquer tamanho, às vezes apenas com um olhar, uma fala, um gesto, um silêncio eloquente ou em uma marcha coletiva.

A trama é muito rica em detalhes e referências que vão se costurando em nossa frente. Acredito que o grande estalo criativo da obra é a reprodução do tempo passado no presente. Cenas coloniais ligadas à geografia da escravidão como a captura violenta (vide Pai contra Mãe de Machado de Assis), a fuga para as matas, o afrobunker em lugar dos quilombos, acontecem na paisagem urbana do Rio de hoje. Bem como cenas do século XX e até de nosso passado bem recente são reproduzidas numa espécie de espelhamento atemporal.

A gramática da Ditadura Militar está toda posta no Ministério da Devolução (Que nome e que ministro!), nos porões, nos arquivos, nas portas fechadas, no discurso dissimulado que faz parecer que um absurdo é uma dádiva, na votação da câmara (“pelo meu país, pela minha família” XX E XXI). Essa dança cronológica enriquece muito o universo distópico e mostra que o surreal coexiste em qualquer tempo. O “como deixamos isso acontecer ?” de André é uma marca palimpsestica de que todos esses brasis estão vivos e podem nos surpreender...

Atentem para o momento em que a Medida Provisória é aprovada e o segurança da inspetora Isabel, referência explícita ao nome da Redentora, atuação irretocável de Adriana Esteves, imediatamente prende o seu colega “melaninado”, a cena soa como um eco da famosa fala de Pedro Aleixo, vice de Costa e Silva na ocasião do AI 5, “Presidente, o problema de uma lei assim não é o senhor, nem os que com o senhor governam o país. O problema é o guarda da esquina”.   E o filme é cheio de guardas da esquina. Cenas assim se reproduzem no filme, muitos e muitos ecos e intertextos gritam em muitos momentos.  

Por falar em espelhamento, uma das cenas mais fortes do filme se dá na morte simultânea de André e Santiago, Pablo Sanábio, braço direito de Isabel que se arrepende por amor a Ivan (desculpem o spoiller) e muda de lado. Cenas de brutalidade que se dão tanto na superfície quanto no afrobunker, guiadas por razões diferentes, mas ambas pautadas no ódio que cega, destrói a razão e gera dor. Outras de força latente é a cena do centro cirúrgico invadido, a luta da namorada de André (Mariana Xavier) tentando ajudar de todas as formas ou banho de André lavando a tinta btanca.

E é nesse afrobunker que coisas lindas também acontecem, Dona Helenita/ Diva como uma espécie de sacerdotisa da emoção, da razão e da ação,  não posso falar mais nada dela para não dar mais spoiller, Berto/Emicida trocando armas por livros, a assembleia liderada pelo ancião numa atuação arrebatadora de Hilton Cobra, a cortina de Capitu com fotografias de pessoas inspiradoras e as aparições rápidas e marcantes de tanta gente iluminadora dessa luta contra o racismo e outras violências (Tia Má, Luana Xavier e cia).

Não posso terminar sem falar que a trilha sonora (Elza Soares, Cartola e cia, quanta Sapiência!), os cenários, a fotografia, o texto, o figurino, esses merecem rios de caracteres, só Dona Izildinha daria uma tese, só poderia ser vivida por Renata Sorrah com aquela roupa, aquele cabelo e aquele discurso (conhecemos muitas por aí) e ainda devo dizer que dá para rir muito em alguns momentos, afinal a Bahia dá um trabalho danado, né não ? Até o Japa...Ó paí ó...

Precisamos de arte, precisamos de artistas, precisamos daquele soco catártico, daquele aplauso no final, precisamos de ficção, precisamos dessa “subersiva alegria”. Obrigada, Lázaro e  cia, a gente te viu na marcha final (cameo) e esperamos te ver muito em trabalhos assim, onde você vai de mãos dadas com tanta gente linda...Agora, deixe-me ir, preciso andar, rir para não chorar...A marcha é contínua e continua ...

P.S. Os policiais todos aparecem de máscaras, e aí leitor?...

 

 

sábado, 12 de fevereiro de 2022

Além da ilusão: Folhetim em Fogo vivo

 

    Estreou essa semana a novela Além da ilusão, da autoria de Alessandra Poggi, a autora inicia promissoramente sua primeira novela solo (já colaborou em Malhação e integrou equipe de Miguel Falabella em Aquele Beijo, Pé na cova e O sexo e as nega). Nos seus primeiros dias, os arcos dramáticos já estão instalados com maestria e com promessas que nos animam.

    Tendo como cenário Poços de Caldas – MG (mundo urbano) e Campos-RJ (mundo rural), o namoro proibido entre Elisa (Larissa Manoela, está bem, mas me parece um tom ainda de musical)) e Davi (Rafael Vitti, convincente jovem galã) dá o tom no núcleo principal. A filha do severo juiz Matias e um mágico sonhador têm seu romance interditado pelos ditames conservadores da época. Esse veto faz com que a jovem enfrente com valentia seu mundo patriarcal. O amor, representado pela frágil rosa vermelha, é esmagado à força pelo seu pai, interpretado com destreza pelo Antonio Calloni.

    Ambientada nos anos 30 e 40, a novela não se detém apenas à ilusão, como o título sugere, embora a atmosfera feérica reine em muitas cenas de bailes e suspiros e magia. Há como pano de fundo da trama mudanças políticas propostas por Vargas (jornada de trabalho e outros direitos já foram mencionados) e outras questões sociais e econômicas, dentre elas, no mundo rural: A decadência dos engenhos de açúcar com a chegada das usinas.

    A morte do coronel Afonso (Lima Duarte) é o símbolo da decadência do antigo modo de produção do açúcar que não consegue competir com as usinas, ou seja, é o anunciado engenho de Fogo Morto, tão bem marcado na história da nossa literatura pela trilogia de José Lins do Rego (Menino de Engenho, Banguê e, justamente, Fogo Morto). Aliás, todo aquele universo de Campos tem um apelo histórico muito forte e recria passagens de nosso Brasil, como a convivência dos ex escravizados e dos imigrantes italianos trabalhando para o latifúndio da cana, rendeiros, posseiros e meeiros estão todos ali tentando sobreviver em meio à tal decadência e pobreza. Há claramente ainda uma servilidade muito forte e ecos coloniais que gritam em plena República.

    Emergem desse contexto as irmãs Violeta (mãe da protagonista), Mallu Galli e, Heloísa, Paloma Duarte, que estão dando um show como irmãs fortes que se amam e se enfrentam em torno daquele legado decadente. A cena de Heloísa no velório do pai, depois da confissão desse sobre sua filha, foi muito bem conduzida, trazendo ecos de A crônica da casa assassinada de Lúcio Cardoso, romance seminal brasileiro.

     É sabido, que na segunda fase da trama, nossa mocinha valente será Isa, a irmãzinha de Elisa (observem a pertinência do nome, Isa está contida em Elisa) que adulta também será vivida pela mesma atriz, já que Elisa morrerá e seu amado será condenado injustamente através de uma mentira sórdida de seu pai. Com a passagem de anos, os dois se reencontrarão e a rosa esmagada no passado será revivida.

    Vale ainda notar que a trama está muito bem dirigida por Luiz Henrique Rios, com belos cenários, jogos de luz, figurinos, diálogos e uma trilha sonora caprichada (divina  e graciosa)! Bem, o Engenho pode estra de Fogo Morto, mas o Folhetim segue vivíssimo, enquanto houver amores, segredos, lutas de classes, cartas roubadas, gavetas vasculhadas, sangue, honra, humor e a magia da ficção, nós espectadores aqui estamos torcendo por mais um triunfo da ilusão da arte que nos distraí das dores da vida!

 

 


domingo, 14 de novembro de 2021

Um lugar ao sol: Um duplo brinde ao retorno do horário nobre

 

Quem estava saudoso por uma nova trama no horário nobre começou a matar sua sede essa semana. E com aquele gole refrescante que estávamos precisando depois de longa abstinência. A novela Um lugar ao sol, de Lícia Manzo com direção  refinada de Mauricio Farias, chegou dizendo a que veio e a autora ocupa muito bem o seu lugar ao sol na faixa das 21h.

Centrada no tema do duplo, tão caro na nossa tradição literária, temos os gêmeos Christian e Christopher, depois Christian e Renato, vividos por Cauã, que já nos brindou com outros gêmeos em Dois irmãos. Aliás, a nossa teleficção é repleta de exemplos gemelares de sucesso: Quinzinho e João Victor, Rute e Raquel, Tais e Paula, Jorge e Miguel dentre outros. Irmãos fisicamente idênticos, mas sempre marcados pela oposição de perfis psicológicos, advinda da matriz bíblica de Esaú e Jacó. Matriz já evocada na trama através do livro de Machado de Assis, alvo de uma cena entre Cristian agora Renato e seu sogro que contou a história da rivalidade de Pedro e Paulo presente no romance machadiano.

A citação lida pelo sogro (uma menção a Aires talvez) representa o dilema vivido pelo gêmeo sobrevivente: - “Não é a ocasião que faz o ladrão, dizia ele a alguém; o provérbio está errado. A forma exata deve ser esta: A ocasião faz o furto; o ladrão nasce feito". Christian, preterido e abandonado à sorte no berço quando seu irmão foi o escolhido para ser adotado por um casal rico, viveu uma vida de privações num abrigo onde nunca foi escolhido. Aos dezoito anos sai desse lar para ganhar a vida sozinho num mundo hostil. Durante os anos no orfanato, a vida de carências lhe dá outro irmão, Ravi, peça fundamental na costura da trama e única testemunha de sua vida anterior e de sua decisão de assumir o lugar de Renato, o renascido. Coube a ele queimar as provas de seu crime.

Os dois irmãos sofriam de angústias diferentes e ambos foram mostrados em encruzilhadas, em caminhos que se bifurcavam. Agora só há um, Christian ocupando a vida de Renato, que foi batizado na piscina, uma simbólica cena de batismo e transição para a outra vida, portanto renascido novamente. Ele aproveitou a ocasião para furtar a vida do outro e junto com ela tudo que lhe fora negado em oportunidades materiais, mas recebe junto todos seus dramas também. Embora só tenha ficado um, o espectro do outro, do seu duplo, o atormentará e a nós também.

Uma das estratégias narrativas mais interessantes nessa primeira semana foi mostrar as diferenças sociais entre os dois mundos através de vários elementos, seja a festa de aniversário, as roupas de grife, os espaços de luxo/carência, o banho, a mobília, as várias barreiras sociais separadas por muitos vidros (carros, janelas, vidraças), evidenciando o mundo que Christian só podia ver pelas frestas até que muda de lado.

Vale destacar uma cena rápida, mas muito significativa, o diálogo entre o professor (Tonico Pereira) e Christian, lembrando seus sonhos de infância no orfanato e lhe presenteando com Memórias póstumas de Brás Cubas, também do nosso onipresente Machado e lendo a seguinte passagem: “É muito melhor cair das nuvens que de um terceiro andar!”. Uma cena típica do mentor, mestre e discípulo olhando as estrelas, a máquina do mundo,  que estimulou no jovem o desejo de também como Brás poder sair por aí acotovelando a multidão. Todavia, ele não é Brás, nem Renato, e sofrerá com os códigos do seu novo mundo e com o olhar de Ravi pelo retrovisor, brilhante interpretação de Juan Paiva.

Ao se tornar Renato, perde Lara, o oposto de sua esposa Bárbara,  seu passaporte para cruzar a fronteira e pelo que vimos até aqui esse triângulo pode render muito ainda. Lara é o retrato do bem, da coragem, da mulher lutadora, ao contrário de Bárbara, mimada, fútil, preconceituosa, peso que sua opção terá de carregar.

Não podemos esquecer de Marieta Severo, que chegou iluminando tudo, com sua presença leve, sábia e solar para salvar a neta  das dores do luto, a cena delas no banco da praça falando sobre os motivos para a felicidade foi belíssima ( talento de Lícia Manzo, em retratar com lirismo as relações de afeto, como vimos em Sete Vidas e A vida da gente) e já se insinua que ela também tem um enigma a ser revelado... Meu palpite arriscado, tem a ver com o sogro do novo Renato.

Além do já dito, a novela se destaca também nos núcleos paralelos, personagens secundários e no humor ácido. A modelo que teme a velhice, a gordofobia, a sucessão familiar, as traições, as amizades,  a peruagem, os ricos falidos...Tudo indica que vem novelão por aí! Um brinde à nossa sede de ficção que pode ser na flute de Renato ou nos copos de requeijão de Christian.

E com bônus de ouvir o nome de minha cidade todos os dias: ‘Não passa disso, não me engana/ Que eu sou sul-americano de Feira de Santana!

 

 

 

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

Segunda Chamada, Segunda Temporada, Segunda Chance: “Eu nunca mais vou te esquecer”

 

A segunda temporada da série Segunda Chamada entrou no ar na Globoplay há poucos dias e já aquece corações e anima reflexões por todo país. Escrita por Carla Faour e Julia Spadaccini, com direção de Joana Jabace, esses novos seis episódios continuam revelando, com tensão dramática e doses de lirismo, o cotidiano de uma escola pública noturna com todas as suas carências e possibilidades.

Dessa vez a escola lida com um problema que tem atingindo o turno da noite em vários cantos do Brasil, o baixo número de matriculas, ou seja, a falta do interesse dos alunos em buscar essa escola por diversas razões pessoais e, sobretudo, sociais. Diante disso, muitos colégios são ameaçados de fechar. A partir desse mote, a Professora Lúcia, magistral Débora Bloch, toma para si a missão de encontrar mais alunos para que a escola não se acabe e que aqueles poucos que estão ali também não desistam.

Movida pela hybris que lhe é característica, ela nuca desiste e não permite ser subjugada pelos limites que lhe impõem, vai buscar em um grupo de moradores em situação de rua seus novos alunos. E, para a surpresa, repulsa e espanto de muitos, ela consegue incluir aquelas pessoas invisíveis na lista da Segunda Chamada, da Segunda Chance, da escola e da vida. Esse grupo, liderado por Hélio (Ângelo Antônio com sua força frágil que já conhecemos e adoramos), o sol daquelas almas, vai protagonizar grandes cenas dessa temporada. Por trás daqueles corpos sujos e rejeitados há uma profusão de histórias de vida que merecem ser ouvidas. Aquelas pessoas sem nome, sem endereço, sem documentos, terão seu espaço na Carolina Maria de Jesus.

Outros conflitos também são encenados nas salas de aula, preconceitos de toda ordem, contra o índio, contra o nordestino, contra o idoso, contra os novos alunos que não têm casa. Percebemos que o grande conteúdo daquela escola não está no Português de Lúcia, na Matemática de Eliete, na História de Sônia ou nas Artes de Marco André, mas nas múltiplas intervenções que os mestres fazem para que a maior lição seja aprendida, a convivência com o outro. A alteridade é o conteúdo primordial que atravessa essa trama.

Não poderia falar em idoso, sem destacar o papel de seu Gersinho, vivido de corpo e alma pelo veterano Moacyr Franco, sempre habituados a vê-lo nos fazer rir, tomamos um susto com a grandeza dessa personagem que sofre do Mal Alzheimer e quer realizar o sonho de terminar seus estudos antes que toda memória se esvaia. E olha, Carla e Júlia, se vocês não o botassem para cantar, eu ia ficar frustrada, que cena fenomenal. A música será usada como recurso mnemônico em um momento crucial, “ eu nunca mais vou te esquecer”...

Como em toda boa trama, há de ter os elementos folhetinescos, amor, morte, sonhos, segredos do passado, drama e afins. Sem dúvidas todos esses desfilaram em nossa tela ou em nossa telinha nos fazendo chorar de riso e de dor. O casal Sônia e Marco André (Hermila Guedes e Silvio Guindane, obrigada!) vai viver seu amor difícil com direito ao céu e o inferno em poucas horas sob a voz de Edith Piaf que já é suficiente para nos comover. Mais não digo...E por falar em música, a trilha sonora é um espetáculo à parte.

Como professora de Literatura preciso elogiar as aulas de Lúcia, a sequência na qual os alunos leem Grande Sertão: Veredas é belíssima. Ela alfabetizando Dona Néia é comovente, enquanto  mostra o A, Ana Maria Braga aparece na tela da pequena TV e é com música que a aluna avança alegremente em sua alfabetização. Aquela mulher que saber ler a vida, lerá também as letras e os livros que ela vende agora lhes pertencerão.  Método Paulo Freire na veia. Além, obviamente, das aulas e dos exercícios de Teatro de Marcos André que faz com que os alunos sejam protagonistas de suas tramas seja qual for o texto.

Ainda é preciso destacar quantas outras discussões contemporâneas e eternas são trazidas para o chão da escola, a pobreza menstrual, o alcoolismo, os subempregos, a moradia, a queima dos livros, a homofobia, a violência contra a mulher sob várias formas (Leandro!!!!), a acessibilidade, o difícil papel de diretor e administrar múltiplos problemas diariamente (Paulo Gorgulho, nota dez com louvor e distinção), o descaso das autoridades com a educação, representado pela brilhante alegoria da rachadura do prédio, não adianta remendos, “é estrutural”, mas mesmo assim como diz Lúcia “Educar não é sobre vencer, é sobre resistir, é sobre acreditar que as coisas podem mudar.” E todos os dias milhares de Lúcias saem de suas casas com o sol brilhando e voltam a noite exaustas, mas cientes de que fizeram algo por alguém... No reino da ficção é possível dizer muitas verdades...E Apesar de vocês, amanhã há de ser outro dia...

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

Nos tempos do Imperador, uma dupla saudação! Ave, Pedro! Ave, Ficção!

 

A novela Nos tempos do Imperador de Alessandro Marson e Thereza Falcão é saudada com alegria pelos telespectadores ávidos por uma nova história na nossa televisão. Vale lembrar que desde 2020, com a suspensão das gravações pela pandemia, é a primeira trama completamente inédita, uma vez que Amor de Mãe e Salve-se quem puder retornaram para serem concluídas.

Nós, os noveleiros, não estamos felizes só por uma novidade no ar, só por mais um “Era uma vez” tão esperado, o que já nos contentaria, mas por se tratar de uma trama histórica que retrata um período importantíssimo do nosso país. Nos tempos do Imperador vem somar pontos na nossa tradição de produzir novelas de época de alta qualidade e que marcam nossa teledramaturgia como Escrava Isaura, Direito de Amar, Sinhá Moça, Força de um desejo e Lado a Lado dentre tantas outras.

Como uma espécie de parte II de Novo Mundo, os autores voltam para continuar a sucessão de Dom Pedro I na figura de seu filho Dom Pedro II. Com os pés fincados no real, a novela, obviamente, não se furta do seu papel folhetinesco e de seu compromisso único com a ficção, mas nos oferece uma boa dose de História. Misturando as esferas propostas por Aristóteles (Res Factae e Res Fictae), a narrativa tem tudo para acertar em cheio ao dosar bem esses dois universos.  Se for História demais, tenderá ao documentário, se for ficção demais, trairá o tempo citado no título.

Por falar em título, fica claro que se trata de uma novela de personagem, boa parte circula em torno de Pedro II, vivido pelo grande ator Selton Mello. Todas as outras linhas, de alguma forma, convergem para ele. Sua centralidade é bastante simbólica e construída com os pinceis da ficção que ampliam e retocam sua figura pública já conhecida. Ele é o homem ilustrado que lê Goethe, cita Dante e tem Victor Hugo como seu autor preferido, citações nada ingênuas e que dão a argamassa de seus pensamentos. Ele é o cientista, o colecionador, o fotógrafo, o monarca que aceita ideias diferentes, como consentir que um professor republicano dê aulas para suas filhas, mas não consegue frear tantos problemas. Características que compõem esse homem que não pôde escolher seu destino e há de decidir sobre o destino de um povo.

O que tem me chamado mais atenção até o momento é justamente os dramas íntimos do Imperador e de seus pares, ou seja, o homem e a mulher por baixo da coroa e do cetro, com todas as suas fragilidades, angústias e dúvidas. Sabatella é sempre excelente em portar o elemento trágico em suas atuações. A essa altura, ela já mostrou saber da ameaça que entrou em seu palácio, a Condessa de Barral. Ao que tudo indica Ximenes também protagonizará a trama com suas atitudes de vanguarda e por ser a outra vértice do famoso triângulo amoroso, se é que se pode falar de amor nos casamentos reais. Os olhares desse trio se mostraram eloquentes nessa primeira semana, dizendo muito do que virá.

Para além do Paço, temos uma cidade que pulsa com todas as suas camadas. Golpe de mestre dos autores trazer à luz a Pequena África com tudo que ela representa num país escravocrata, uma espécie de espaço utópico, um pequeno território onde os negros exerciam sua “cidadania” e que é desconhecido da maioria. Ao ser apresentada para Jorge/ Samuel pelo outro rei da trama, o rei negro, ele achou estar no céu. Não sem muita luta e sangue, meu caro jovem, a exemplo dos malês que ele acompanhou.

 E chegamos em Jorge/ Samuel, um outro protagonista, uma espécie de espelhamento do mundo de cima, que viverá as agruras de um amor proibido por sua Pilar, a jovem que quer mudar sua sina ao fugir de um casamento arranjado por seu pai. A menina tem força de heroína, filha do coronel vivido por José Dummont (muito bom vê-lo nessa condição social), metonímia de todo conservadorismo e interesses escusos (Moça só sai de casa ou casada ou morta!). Temos que destacar o núcleo dos coronéis baianos, liderados por Tonico Rocha (Olha o Imperador em outro Império! Dá-lhe Nero! E ainda levou Josué para o Paraguai!), um típico representante das elites do XIX, parece ter saído da lavra machadiana. Ele daria um ótimo primo de Brás Cubas. São muitas personagens e muitos brasis ainda a serem mostrados.

No bom estilo histórias cruzadas, todos esses brasis se misturam em busca de uma ideia de nação que ainda tateia sob as luzes difusas dos lampiões e das chamas das  fazendas do Recôncavo e não sabe o que fazer com tantos problemas internos e externos. E não podemos esquecer daquela herança maldita do tempo de Pedro I, ou de Novo Mundo, Licurgo e Germana, tão grotescos que nos chocam. Alegorias de um espírito atrasado e zombeteiro, espíritos de porco indomáveis. duas outras alminhas fantasmagóricas a nos assombrar, como aquela de Viva o povo brasileiro.

Estou confiante que teremos boas surpresas embaladas por uma trilha sonora sensacional, cenários, figurinos e fotografias de encher os olhos...E antes que venham as réplicas...Nunca foi fácil falar sobre o Brasil e sobre nosso passado tão incômodo e ainda tão presente nos nossos dias...

sábado, 10 de abril de 2021

Amor de MÃE: A ficção atravessada pela inverossimilhança da vida

 

A novela Amor de Mãe, que ontem se findou, será marcada pelo atravessamento surreal da pandemia em nossas vidas e seus desdobramentos na ficção. Iniciada no final de novembro de 2019, foi interrompida em março de 2020, retomada um ano depois para ser concluída da forma mais breve possível em razão das circunstâncias impostas para sua gravação e que consagra Manuela Dias, sua jovem autora, no time de ouro das nossas novelistas na esteira de Janete Clair, Glória Perez e cia.

             A novela é uma obra aberta e vai sendo feita ao sabor de diversas variáveis. Os autores sabem como começam seus primeiros capítulos, mas só têm uma vaga ideia de como terminará. Nessas variáveis entram, por exemplo, a aceitação do público que faz uma subtrama crescer ou minguar, uma personagem secundária se destacar ou as próprias intempéries da vida, como a doença ou morte de um ator, mudar o rumo, mas com a variável pandemia, ninguém, nem na arte, nem na vida, podia prever. E foi esse o desafio que se apresentou e que atravessou a novela das 21h, das 9h que já foi das 8h, a mais vista e desejada da nossa TV. E aguardamos um ano para ter o desfecho do mote principal, o reencontro de Lurdes com Domênico, seu filho vendido aos dois anos de idade. Fato central que fazia com que as outras duas protagonistas, Telma e Vitória, orbitassem ao seu redor até que suas histórias se cruzassem.

A grande cena do encontro de Lurdes com Domênico/Danilo já nasceu antológica, certamente entrará para a galeria da nossa teledramaturgia como uma das mais belas e emocionantes. O momento tão esperado foi marcado por diversos símbolos potentes, desde o altar possível construído por Lurdes para continuar rezando por seus filhos, à revelação da Graça da saída do cativeiro pela Pomba, formando uma trindade nova Mãe, Filho e Espirito Santo.

O encontro na estrada merece nossa atenção especial, a mãe que buscou o filho por 27 anos é que foi encontrada por ele. Sem saber quem estava procurando, o filho achou aquela que já estava velando por ele. A estrada empoeirada, semelhante ao espaço onde toda a busca começou, volta à cena, acrescida de trilhos abandonados, uma metáfora do curso de uma vida que foi interrompido e, no momento magistral do abraço e do reconhecimento através do cheiro na cabeça do filho, a mesma estrada deu ré para recuperar o tempo do amor perdido. Além dos símbolos, a interpretação dos atores foi visceral, Lurdes/Regina Casé tornou-se, nesse momento de desalento que vivemos, uma espécie de mãe arquetípica de todos nós (“Sua mãe está aqui” seu brado retumbante). Já Domênico/Chay Sued honrou toda a espera e a angustiada sequência da procura com a maestria de um grande ator que fala através dos olhares, dos silêncios, dos soluços e do texto forte (Onde estava Deus?) que brotava de sua voz rouca, típica das emoções que nos atravessam a alma. E a música Onde estará o meu amor?,  de Chico Cezar cantada por Maria Bethânia, coroou o momento ( A noite findou e o sol rebrilhou sobre eles).

Daí em diante a alegria dos reencontros com os filhos/irmãos, naquela grande família cheia de problemas, mas unida nas horas boas e ruins. Ao chegar no quintal da casa de sua nova mãe, o filho reencontrado e tentando matar Telma dentro dele, pergunta para Lurdes sobre o ninho do passarinho, outra imagem do aconchego que teria naquela casa e sobre o que fazer com aquele sentimento que lhe esmagava o peito. Dentre uma das falas de Lurdes nesse reencontro ela disse: “O tempo é rei, o tempo cura tudo, não existe família perfeita, existe família unida”. Aliás, as frases sábias de Lurdes mereciam um compêndio, filosofia condensada dessa mãe tão brasileira que nos faz rir e chorar!

Ainda vale destacar outras simbologias interessantes nessa retomada da trama. A psicopatia revelada em Telma foi acompanhada das imagens internas de sua casa, corredores, portas, gavetas, pastas, papeis guardados, que aludem aos seus labirintos internos. Adriana Esteves brilha em qualquer personagem na comédia ou no drama ela reina soberana.

 A morte de Álvaro, o gigante Irandhir Santos, de tão boa atuação que a gente ainda sente empatia por ele, como ele mesmo disse "sem arqui-inimigo não tem herói", também foi rica em imagens. Se arrastou até a cadeira da presidência, marca de sua ambição, e morreu porque foi buscar mais dinheiro que como já fora dito era o móvel de sua vida, poço de seus vícios e no amor por Verena sua única virtude. Ele era a marca da corrupção predadora na trama. Sua construção nos remete à máfia italiana com seus ternos elegantes e gostos refinados, inclusive sua trilha sonora é a ópera Mio Babbino Caro de Puccini. Através dele, tivemos Davi, o quixotesco ativista ambiental, que teve um belo fim, discursando na ONU, gotas de esperança que a ficção nos dá.

Pela própria economia narrativa e penso que pela necessidade de tratar de diversos temas em pouco tempo, houve algumas passagens que julgo desnecessárias, mal resolvidas ou que traíram a verossimilhança buscada.  A luta corporal e o discurso de Vitória com o agressor da esposa no meio do mato, a morte de Lucas, a saída dos pacientes da UTI em aparência tão saudável, a inserção da mãe biológica de Tiago, mas paro aqui, porque os acertos foram bem maiores e não abalaram em nada o brilho do final.

Sem esquecer de personagens que cresceram muito e se modificaram durante a trama como Penha e Leilinha Pé na cova Gratiluz que foram se destacando até formar o casal de contraventoras simpáticas que acabamos perdoando ou Lídia, que encontrou no verdadeiro amor por um homem simples, uma razão para recomeçar sem perder o charme o esnobismo dos herdeiros. Aliás, Magno merecia a menção honrosa Amor de Pai, de filho e de irmão. Sandro, outro exemplo de força interpretativa e caráter ambíguo, oscilando entre seus dois mundos, opta pelo segundo, sem deixar para trás os amigos antigos.

O final... As três protagonistas juntas no leito de morte de Telma, discutindo suas culpas e seus perdões e a consciência da mão do destino que age impiedosamente sobre nós surgiu em diversos diálogos (se Domênico não fosse vendido, não existiria Camila, se Sandro não fosse o primeiro a ser vendido... E  aí por diante na estrada sinuosa da vida). E o perdão de Danilo que foi ministrar a extrema-unção, o perdão para que Telma pudesse partir. Como em sua fala que bom seria se as mães não errassem nunca e fossem perfeitas, mas como isso não é possível, ficamos com Lurdes marcando os copos com esmalte para seus filhos e todos juntos se sacaneando com todo respeito, como ocorre nos encontros das famílias imperfeitas e que se amam...


Teria muito mais a dizer tão grande era o meu desejo de voltar às Entretelas em um ano que só tivemos reprises em meio à barbárie lá fora. Não posso terminar sem falar do discurso esperançoso de Camila, Jéssica Ellen excelente em seu carrossel de emoções e provas, se Lurdes é nossa Mãe arquetípica, ela é a nossa Professora arquetípica. A que luta todos os dias por uma educação melhor e crê no seu poder de transformação mesmo em contextos tão adversos... Sim! A ficção também pode nos ensinar muita coisa e nos salvar por alguns momentos da brutalidade do cotidiano... Pena que foi tão rápido, mas o suficiente para ser inesquecível. E, assim como na novela, terminemos com Guimarães Rosa, pela boca do nosso Riobaldo, porque a vida é travessia e exige da gente coragem:

O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. O que Deus quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais, no meio da alegria, e inda mais alegre ainda no meio da tristeza! Só assim de repente, na horinha em que se quer, de propósito – por coragem. Será? Era o que eu às vezes achava. Ao clarear do dia.

 

Sigamos segunda-feira com Império. Na falta do novo, redescobriremos a magia do já visto...

 

 

 

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Amor e sorte, primeiro episódio: Outro “doce” de mãe!

 

                                                                         Para minha amiga Zélia Martins

 

Umas das palavras de ordem, já gastas pelos seis meses de uso que vem perdurando a pandemia, e que nos condenou, dentre outros sofrimentos, ao isolamento social, é o verbo Reiventar.  Mudanças de hábitos, de regime de trabalho, de consumo, de lazer e de formas de se produzir novos produtos culturais enquanto vemos gráficos e reportagens que nos deixam tensos todos os dias e noites. Assim, a teledramaturgia, pão poético diário da maioria dos brasileiros, também precisou pensar em outras formas para continuar levando os fios da ficção para nossas casas.  

Juntando todos esses elementos, uma forma de contornar essa sombra foi a genial ideia de Jorge Furtado de fazer uma série sobre confinados reais e seus sabores e dissabores, com tramas muito semelhantes ao que muita gente está experimentando. Famílias reais de atores fizeram de suas casas palco para essa novidade deliciosa que nos traz um sopro de alegria, mostrando que a arte é uma danada e que dá seu jeito sempre que possível.

Assim, fomos presenteados ontem, com um episódio belíssimo que retrata as agruras da convivência forçada entre mãe e filha, com naturezas e pontos de vista completamente diferentes sobre a vida, “esquerda carnívora” e “liberalzinha vegetariana”, segundo elas mesmas em meio a uma discussão acalorada sobre matar um frango e demitir funcionários. Briga que nos rendeu uma das aventuras mais cômicas do episódio, a captura da penosa que não se entregou facilmente ao abate, teimosa assim como as duas protagonistas.

É sabido que todas as famílias têm conflitos, mas espera-se de uma mãe de 90 anos e uma única filha de meia idade, executiva bem sucedida, uma relação pacífica ou ao menos cordial, ledo engano. Gilda e Lúcia são boas representantes da bipolarização do nosso país que ficou nas entrelinhas desse programa de estreia. Como também da condição dos nossos aposentados que não podem pagar um plano de saúde e outras despesas e precisam que sua renda seja completada pelos filhos. Questões nem sempre simples ou que também resultam em papéis invertidos, quando a aposentadoria dos velhos é a fonte de sustento. No plano da frente, uma deliciosa comédia familiar, no plano do fundo, um painel do país.

Um dos topos mais presentes na Literatura Ocidental, para utilizar a terminologia de Ernest Curtius no seu clássico Literatura europeia e idade média latina, é o da velhice tranquila e sábia, tema já presente em Sêneca e Cicero, sábios da antiguidade. Dona Gilda contraria toda essa representação. Ativa, impulsiva, hedonista, ranzinza, boemia, dentre outras qualidades ou defeitos a depender da medida, deu muito trabalho para sua filha Lúcia, disciplinada, focada, responsável, séria, saudável (com a ajuda de um ansioliticozinho, é claro), também qualidades ou defeitos a depender da medida. E a convivência das duas isoladas em um sítio onde, de fato, Fernandona e Fernandinha, cada vez mais parecida com a mãe, estavam ilhadas com a família, não foi nada fácil.

Mas, de volta à convivência, vem de volta o amor que as unia, as lembranças, as fotos, os risos, as estrelas, a boa mesa com o frango assado e uma boa taça de vinho (pode ser em copo de requeijão também, o que vale mesmo é a companhia), elementos que aproximam quem se quer bem e aparam arestas das diferenças. E elas já não queriam que aqueles dias acabassem, era preciso prolongar o prazer e a presença de ambas. Gilda toma suas providências cortando, literalmente, a conexão com  o mundo lá fora, outra cena incrível e muito simbólica. E como uma boa obra de arte pode ser vivificante como aquela taça de vinho, ela nos brindou com a esperança da notícia que todos esperam em todos os lares, a vacina chegará, e a receberemos de braços e abraços abertos, mas sem esquecer daqueles que se foram, porque assim é a vida, agridoce como as relações humanas em qualquer tempo... Que venham os casais nessa nova Comédia da Vida Privada... Amor é Sorte!