sábado, 26 de setembro de 2015

Verdades Secretas ou A vida como ela também é

                                Verdades Secretas  ou A vida como ela também é
A novela das 23h00h, Verdades Secretas, de Walcyr Carrasco, dividiu o público e fez muita gente dormir mais tarde nos últimos dias. Ancorado no mundo e, sobretudo, no submundo da moda, trouxe à tona aspectos nem tão glamourosos assim. Escancarou detalhes do backstage desse universo, jogando luz mais para os bastidores que para as passarelas propriamente ditas. O book rosa foi o símbolo dessa escolha temática principal, com a sobrecapa cor de rosa encobria a degradação das modelos, que, seduzidas pelos holofotes, acabam por cair num mundo sem cores. Arlete ao assumir sua nova identidade, Angel, faz o rito de passagem para esse outro mundo acinzentado. A ninfeta, o mote da Lolita é uma recorrência na literatura, vai ceder às tentações e transforma-se em anjo-demônio.
Paralelo a esse eixo central, tivemos à mostra várias relações humanas devastadas. A família de Alex, um tumulto constante, sem afeto, sem comunicação, sem convivência. O pai e madrasta de Arlete-Angel, oportunistas e cruéis, a relação de Anthony com sua mãe (excelente Eva Wilma) pautada no ressentimento, se ampliava para a cama de Fani (Adeus, Dona Neném), entre outras. Relação bela só mesmo a de Hilda e Oswaldo, amizade/amor maduro que renderam cenas ternas e profundas.

O triângulo amoroso sórdido entre filha-marido-mãe alimentou cenas de suspense que nos faz oscilar entre os sentimentos de repulsa, ódio e piedade. O pai se divertia com a Lolita-enteada, (inspirações incestuosas) e humilhava sua mãe (Drica, divina). Creio que as inúmeras sequências de sexo seriam dispensáveis, foram desgastando a trama e perdendo a novidade.

Houve muitos pontos altos na parte técnica. A iluminação com os jogos certeiros de luz e sombra, já que a trama expôs os recônditos humanos, aquilo que se quer esconder, mas acaba aparecendo aqui e ali. Os cenários realistas das trevas da Cracolândia e de tudo que habita naquele reino das sombras, no qual Grazi Massafera triunfou. O figurino sob medida para uma novela enredada nos novelos da moda e da sedução, como os biquínis de croché de Angel.

Voltando ao principal, a tragédia anunciada pela presença constante da arma em cena se concretizou. Angel manchou-se no sangue de sua mãe e no do seu amante, e essa nódoa-culpa a impregnou. Nelson Rodrigues ecoava em muitas cenas, revelando a vida secreta das “famílias decentes”, as verdades inconvenientes vistas pelo buraco da fechadura.

Reconheço valores na trama, mas sinceramente não me arrebatou. Penso que faltou mais ficção, mais fantasia. Entre a vida como ela é, prefiro a vida como ela poderia ser. Mais Chocolate e menos Pimenta, mais Rosas e menos Cravos, por favor, Walcyr...

10 comentários:

  1. Realmente... DIVINA DRICA! Toda vez que a vejo atuar, acende um quê de gênio nas suas falas.

    ResponderExcluir
  2. Alana,
    perfeito seu comentário . Aliás, como sempre. Seu conhecimento de Literatura nos brinda com analogias bastante interessantes. Valeu !
    Maria Zélia

    ResponderExcluir
  3. Prazeroso demais é o comentário depois das tramas. Ficamos a cada dia mais ansiosos pelas próximos "capítulos" desse blog, que muito mais que um olhar crítico de uma expert em narrativas, tornou-se um alimento para a nossa alma de noveleiros e leitores. A novela, realmente tornou-se apelativa, grotesca, expondo por demais as mazelas das pessoas, não estamos preparados para ver tamanha exposição humana. Análise Perfeita!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada, anônimo, continuemos por aqui alimentando nossa fome de ficção.

      Excluir
  4. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  5. Não acompanhei de perto a novela mas creio que a pimenta constante em cada capítulo é um filão que a emissora gosta de exercitar no horário, admiro o fato de um autor ter consigo mesmo assim mostrar histórias dolorosas, chocantes e belas associadas a divinas e (por que não?) diabólicas interpretações! Parabéns Pró! Irretocáveis mesmo são seu texto e olhar!

    ResponderExcluir
  6. Alana, não acompanhei muito Verdades Secretas, vi alguns poucos capítulos. Falaram tanto do último capítulo que busquei aqui na internet algumas cenas e encontrei a que a mãe flagra marido e filha juntos. Drica Moraes é realmente fantástica. Já Rodrigo Lombardi não me convenceu muito na cena. Mais uma vez, adorei ler sua análise!!

    ResponderExcluir
  7. Alana, só agora leio este texto... arrepios... Também fiz um sobre a novela, porém, coragem faltou para publicá-lo. Talvez o seu já nos baste de Verdades. Mas, ainda prefiro o secreto e suas sutilezas embriagadas em um bom rum.

    ResponderExcluir
  8. Alana, só agora leio este texto... arrepios... Também fiz um sobre a novela, porém, coragem faltou para publicá-lo. Talvez o seu já nos baste de Verdades. Mas, ainda prefiro o secreto e suas sutilezas embriagadas em um bom rum.

    ResponderExcluir
  9. Alana, só agora leio este texto... arrepios... Também fiz um sobre a novela, porém, coragem faltou para publicá-lo. Talvez o seu já nos baste de Verdades. Mas, ainda prefiro o secreto e suas sutilezas embriagadas em um bom rum.

    ResponderExcluir